O Entregador



Dizia estar confuso. Não era necessário. Seu próprio comportamento o denunciava. Abria uma porta do carro, vasculhava visualmente o interior, mexia em uma caixa ou outra, retirava-se, fechava a porta, dava uma volta no carro e abria a porta contrária, para recomeçar a ação. Nesse meio tempo pedia “só mais um pouco, tá”. Observei tudo como um cão que acompanha o petisco na mão de seu dono fazendo estranhos desenhos no ar.

Era um homem baixo, incrivelmente mais baixo do que eu, devia ter lá seus 55 anos. Aquela barba grisalha e falha lhe conferia cansaço e mais confusão. Seu olhar era perdido. A voz trêmula.

“Achei, estava aqui!”. Disse como criança que acaba de descobrir algo muito bom e secreto. A alegria de menino lhe proporcionava certo alívio. Eu que estava parada no portão, ali permaneci. Quando ele se aproximou, ainda olhando a caixa a me entregar começou a se explicar, como é próprio de quem está confuso. Talvez seja uma forma de desatar os nós mentais…

“Desculpe é que não estou acostumado…” Na verdade, aquele entregador (como muitos de seus outros colegas) estavam acostumados a esperarem pelos destinatários da encomenda. Nesse processo inverso, eram longos e arrastados minutos, que davam tempo de organizar as tantas outras caixas e pacotes no carro e até atender ou fazer alguma ligação. “E quando acontece assim, raro, de estarem esperando, como você aí, fico nervoso, confuso…”. Entendi. Falei que poderia respirar. E que tinha todo o tempo do mundo. Piorei a situação. O homem se embananou com o celular em mãos e começou a tremer. Fingi não ver. Não estava sabendo ser solidária.

“Fiquei nervoso…” Insistia enquanto meneava a cabeça, distribuía o peso do corpo nas pernas e olhava a rua, como se estivesse a procura de algo. Nada específico. Era ele com a sua própria confusão, obedecendo-a sem objeção.

“As pessoas têm tanta pressa, e não sei para quê. Até parece que salvarão a humanidade”, foi a minha vez de tentar. E ele ainda olhando de um lado para outro, e depois para o celular, o qual adiava a abertura do aplicativo, respondeu “Fala não”.

Evitei olhá-lo. Não queria que ficasse mais desconfortável, mas existe minha curiosidade comichão. Sorrateiramente e de soslaio atentava-me aos seus gestos e respiração. O aplicativo abriu. “Um documento, por favor…” A voz miúda, suplicante… Respondi no mesmo tom. “Meu CPF é…”. Assim, devagar, para que o aplicativo não travasse. Sintonizávamos como irmãos em prece com fé respeitosa.

Agradeci como de costume e lhe desejei um excelente dia de trabalho. Ainda olhando para os lados respondeu “Obrigado, cada pessoa é um mistério”. Fechei devagar o portão e continuei a observá-lo sem que ele desse conta. Saiu devagar, depois acelerou. Parou um pouco mais a frente, ameaçou voltar, mas continuou o trajeto devagar.

“Cada pessoa é um mistério”, repeti caminhando e analisando minha encomenda como se fosse um pequeno planeta, um segredo, como aquilo que se carrega embrulhadinho no coração.

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Toda apatia será julgada

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