Sérgio Cabral (In memoriam)



Sérgio Cabral morreu. Foi o Sérgio pai, jornalista e pesquisador. É preciso explicar. Não pelo fato do filho ter o mesmo nome, mas porque o júnior está maculado, por se envolver demais com política, com problemas de corrupção.

Em tempos pretéritos, quando algo semelhante ocorria, era comum perguntar “Morreu o pai ou o filho?”. Agora não. Vociferam-se em incessantes burburinhos os piores adjetivos a quem pecou mais. E o pior: poderá sobrar para você, como punição por falar sobre o menos pecador, suas habilidades e proezas.

Quando posto minha tristeza de fã sobre Sérgio, o pai, jornalista e pesquisador, autor de notáveis biografias, é porque tenho carinho para com aquele que me ensinou tanto em centenas de páginas. E não se resume somente ao biografado, mas também ao contexto histórico, diga-se de passagem, o Rio de Janeiro: o Rio (quando fora capital federal), sua cultura e também as suas mazelas.

Assim como conheci Salvador pelas belas páginas escritas por Jorge Amado e constatei (ou melhor, me encantei) in loco somente em 2005, conheço o Rio de Janeiro com o auxílio de Sérgio Cabral e Ruy Castro. Tanto que já li trechos e mais trechos para fluminenses que desconheciam fatos e curiosidades do modus vivendi carioca. Antes de qualquer coisa, fluminense — com “f” minúsculo — é referente aos nascidos no estado do Rio de Janeiro, tudo bem? É preciso frisar isso para não haver outras vociferações, pois pai e filho torciam para times diferentes, um para o Flamengo e outro para o Vasco. Sou Botafogo no Rio e Rio Branco no Espírito Santo. Se me deixar levar pelas vociferações virtuais, limitar-me-ei a admirar e seguir somente ilustres torcedores afins e, cá para nós, o que será de mim? Imagine pesar os pesares e desencantar-me com Chico Buarque porque ele é torcedor do Fluminense? Triste fim o meu.

Enquanto Ruy Castro lança e prepara novas obras, fico a pensar no que o Sérgio, pai, poderia escrever mais, se tinha algum projeto em vista e no que pensava. E isso me entristece. Sérgio, o pai, leva consigo para a eternidade o que não poderei imaginar.

Penso que toda vez que falece um escritor ou poeta vai-se embora uma palavra. E lembro que há muito quero ler dele As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (1996). Eis o momento. É uma oportunidade de encontrar novos Brasis, conhecer novos Rios de Janeiro em outras centenas e centenas de páginas, cada vez mais vivas, históricas e ricas. Cabralinas. Não de Cabral (o Pedro, navegador português), mas de Cabral (o Sérgio, pesquisador carioca).

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