Existem coisas que se sabe, meio que ao longe, que existem, mas ninguém vê. E o mesmo vale para bichos. Lagarto é um bom exemplo. Lembro que, quando vi um pela primeira vez, tive um susto, pois não sabia e julguei apressadamente, devido ao medo, que se tratava de um dragão.
Dragão é um bicho que existe, mas não em Setiba, no Setibão ou no Una. Eles existem na Ásia, talvez na Austrália. Bom, se não for papo furado para desocupado criar fake news.
Na semana passada, eu vi uma tartaruga (ou seria cágado?) saindo de uma casa para seguir a empregada que varria a calçada. Mal o bicho conseguiu dar três passos, e a mulher bruta, numa única vassourada, mandou o pobre danado de volta para dentro do quintal.
A vassoura de piaçaba foi na cara dele. Espero que não tenha atingido os olhos, pois este órgão é muito desprotegido no bicho. Penso agora que tartaruga (ou cágado?) não tem pálpebras. Ou tem? Nos desenhos de gibis ou mesmo da TV, as tartarugas, principalmente as fêmeas, tinham. O desenhista, no auge de sua observação artística, na certa desenhava belas e curvilíneas pálpebras para conferir charme e sensualidade ao bicho. Acho-o engraçado, bicho de cara lambida. Se fosse gente, seria gente sem vergonha, devido à cara lisa, lisinha demais. Lembro de um amigo que tem cara de tartaruga, cara lisa, sabe, mas ele não é sem vergonha; ele tem a cara do Edgar Scandurra. E não toca guitarra. Aprecia Monet e Marcel Proust. Sou grata a ele por ter me apresentado um pouco de cultura, inclusive o próprio Proust, que um dia lerei sem promessa de segunda-feira, mas com intenção genuína aliada à curiosidade, porque agora quero ler Carla Madeira e ver se tudo é realmente rio.
Tartarugas e cágados gostam de água. Acho boa a umidade, principalmente nestas semanas de calor assombroso que quase me fez errar o CPF quando a vendedora no pet shop me pediu para abrir o meu cadastro, depois o meu histórico de compras e, por fim, me dar algum desconto em mais uma ração para cachorros. Lá não encontrei nada para tartarugas, mas tem filhotes de hamsters. Tartaruga deve ter alguma coisa. Prometo prestar atenção na próxima. Se bem que a próxima será daqui umas três ou quatro semanas, e na certa esquecerei. Como ontem, que esqueci de lavar a caminha dos meus cachorros. Sei que aguardam esse momento com certa ansiedade só para depois dormir no limpinho, com os focinhos embrenhados no tecido regado de amaciante. No dia seguinte, eles levantam com preguiça, de pelos macios e cheirosos. Gostaria que isso fosse um sinal de retribuição. São apenas consequências naturais. Ou macias.
Tartaruga não é macia. É lisa. Onde dorme? Será que naquela casa tem alguma caminha para ela? Ou é só um cantinho em que ela, sonolenta, se retrai e se esconde dentro do casco? O casco é o seu cobertor. Se eu tivesse contato próximo com uma e a percebesse toda encolhida, bateria no casco como se bate a porta para ver se ela colocaria o pescoço para fora e qual seria sua reação à minha insolência. Talvez não se importasse tanto, pois, depois da vassourada na cara, imagino que deva levar muitos trancos, inclusive da empregada que, na pressa de terminar logo o serviço, deve confundi-la com algum móvel ou brinquedo ou qualquer outra coisa que não seja casco de... tartaruga.
Ontem passei novamente em frente à sua casa, mas não a vi. Atravessei a rua para adentrar outra que me serviria de atalho para uma terceira, já que precisava passar no Empório de Ervas e comprar tanchagem (essencial para a minha otite). Bestamente, resolvi caminhar pelo lado quente e recebi aqueles raios solares bem na fuça, provocando-me um imediato espirro. Quando estou entregue ao segundo, percebo algum vulto do outro lado da rua, porque vulto se apresenta assim: com distância e no canto do olho (ou rabo de olho). Mas não era espírito; tratava-se de gente encarnada. Dois adolescentes que falavam qualquer coisa maravilhados entre si. Estavam em frente a uma bela casa dessas cheia de verde, de arbustos, de fresquinho gostoso de ficar. Essas coisas não deixam adolescentes surpresos, embora a região seja de um calor desértico. Acontece mais com gente como eu, que não pode ver um lastro de natureza que já quer por ali se alojar. E como não é possível, sonho em um dia, um dia desses vindouros qualquer, viver em um lugar assim. Mas o meu sonho ainda não encontrou um atalho. Enquanto crio uma viseira com minhas mãos para enxergar melhor, percebo que o rapaz aponta para a grama e a menina abre um sorriso. É que vinha ao encontro deles uma tartaruga (ou seria cágado)? Não posso esconder que também fiquei maravilhada. Mais uma? E há poucos metros da casa da outra? Quem se inspirou em quem para adotar aquele bicho? Ou seriam esses mesmos bichos parentes que se avizinham por alguns metros? Se assim for, este é o primogênito, pois assim deduzo, com risco, por achá-lo maior. Mas vai que, por minha ignorância nesse tipo de réptil vertebrado, a diferença de tamanho distingue a tartaruga do cágado? Percebo que os adolescentes também não sabem e perguntam entre si: é tartaruga ou cágado? Como um deles logo saca do bolso da calça um celular, em questão de segundos saberá a resposta. É só dar um Google.
Também estou com o meu no bolso, mas celular é uma coisa que me dá preguiça, ainda mais na rua, caminhando por calçadas íngremes e sol cortinando a minha frente. Deixo para lá e sigo. Quando estou prestes a sair da rua atalho, dou uma olhada para trás. Não dá para ver a casa, menos ainda os adolescentes, pois a rua atalho termina em curva. Tartaruga ou cágado é uma dúvida. Talvez jabuti seja a solução.

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