A pergunta que não se cala

 

Tenho para mim que, quando se diz um “oi, tudo bem?”, há uma destas três intenções na mente: a) um cumprimento automatizado; b) uma forma simples de iniciar qualquer conversa; ou c) querer realmente saber o estado da pessoa. Este último sempre há de ser o último. A preferência fica entre os dois primeiros…


Hoje, após a leitura do jornal matutino, lembrei-me de uma situação que exemplifica a primeira alternativa. Estava em um local com um grupo de 17 pessoas. Em um desses momentos em que grande parte do grupo se dispersa, sentou-se perto de mim alguém com quem não tinha muita proximidade. Estávamos frente a frente. Em meio ao silêncio que, em poucos segundos, tornou-se perturbador, iniciei com o tal “Oi, tudo bem?”. Se eu pudesse imaginar a resposta, teria permanecido quieta.

Ela começou a despejar sobre mim todos os males, dores e desconfortos que atacaram sua saúde nas últimas semanas. Eram tantos que cabiam melhor em bimestres ou trimestres. E ela listou todas as moléstias com organização: primeiro foi uma gripe, depois uma crise de sinusite, teve gastrite, sabe-se lá quando uma infecção urinária, depois alguma coisa no joelho, insônia e enxaqueca, enxaqueca e insônia, pressão alta, arritmia, sinusite (de novo), prisão de ventre e… Se estiver faltando alguma outra indisposição, não me lembro.

Isso foi um resumo. Mas imagina ter que ouvir todo o detalhamento? À medida que ela falava, eu me sentia mal. Como se tratava de uma pessoa que falava sem dar uma pausa, a situação começou a ficar difícil.

Comecei a olhar para os lados, como se em algum lugar surgisse um socorro ou abrisse uma saída — um ponto de fuga. E ela relatava com detalhe, olhando-me fixamente. Nada fazia desviar seu olhar. Não poderia negar atenção nem ser mal-educada. Por educação, mantive contato visual, o que me trouxe queda de energia e cansaço. O silêncio não bastava; queria sair. Nada e nem ninguém aparecia para me ajudar ou servir como desculpa para um “vou ali e já volto”.

Comecei a sentir uma agitação interna; era incômodo. Passei a me remexer na cadeira, a sentir dores nas nádegas, nas costas e até nas panturrilhas. Era desconforto provocado pela situação ou estava somatizando as moléstias dela?

“Aí tive um problema com a infecção urinária…” Era estranho. Ela falava da dor com certo prazer. Seria pela lembrança ou por minha reação? Não dá para adivinhar o gozo alheio. Quando ela chegou à dicotomia insônia e enxaqueca, enxaqueca e insônia, pensei (ou melhor, me arrependi) de ter feito aquela simples pergunta. Era tarde; ela não parava de falar. Discretamente consultei o relógio, o celular e até os cantos das paredes em busca de um respiro. Impossível! Mantinha-me sufocada.

Inspirei-me nos cavalos que curiosamente dormem com os olhos abertos e os imitei. Em vez de adormecer, preferi pensar em quaisquer imagens aleatórias como uma simples distração; assim relaxaria e bloqueava aquela energia de enfermidade e lamúria.

Como em um filme, aos poucos a voz dela ia sumindo e os gestos tornavam-se lentos; ainda dava para ouvir “pressão alta”. Agora, experimentava um estranho torpor; era uma sensação que parecia boa e proporcionava leveza. Ela continuava com “arritmia”, e seus olhos se contraíam devagar. Isso, de algum modo, como acontece em situações tensas, despertou certo humor, daqueles em forma de caricatura. A graça era um efeito colateral.
O torpor era como uma neblina que nos circundava. Só eu percebia. As coisas logo iriam se desvanecer, assim como a voz dela, as expressões e sua caricatura de charge de revista. Logo me perguntei: o que fazíamos ali? Tinha me esquecido do que arrependera minutos atrás.

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