Dentro das caixas há lembranças



Minha mãe me pediu para fazer uma faxina quando eu fosse visitá-la. Não se tratava de uma limpeza na casa, mas sim nas minhas coisas que ficaram. Por mais que sentisse preguiça, era necessário. Faz bem organizar, jogar fora o que não precisa, doar o que pode ser útil a outro e guardar o que for necessário e valioso.
Eram duas caixas médias. Tudo o que estava ali dentro repousava em silêncio, milimetricamente disposto, alinhado e harmonizado. Minha mãe é conhecida por essa característica desde sempre; é dela.

Quando abri a primeira caixa, percebi que havia muita coisa ali e lembrei que, em alguma parte — senão na outra caixa — estariam guardadas fotos e rascunhos. Era preciso paciência e atenção. Tenho praticado ambas há três anos, desde que descobri que ansiedade e nervosismo não oferecem nada de bom.

Eram objetos variados: CDs, DVDs, livros, fotos, credencial de imprensa, minha carteirinha do Sated (sim, eu tenho DRT de atriz), lembrancinha da viagem a Natal e até a minha medalha de ouro conquistada no futsal pelo time da escola.

O mais engraçado ao mexer nos arquivos pessoais é que, à medida que se pega, abre, folheia ou lê cada item, os sentimentos aliados diretamente às lembranças submergem em meio ao vasto oceano profundo de nós mesmos.

Eram lembranças diversas de cada instante importante: da escola à universidade, de viagens memoráveis como o carnaval de Ouro Preto e a única ida a Salvador.

Encontrei algumas fotos do meu pai quando era solteiro; em uma delas ele lavava um carro — uma paixão que herdei. Encontrei também uma foto da minha avó paterna e nela vi como meu pai puxou os traços dela. Enquanto isso, minha mãe dizia para jogar fora, já que ela havia morrido há tanto tempo. Não! De forma alguma. É minha avó, com quem não pude conviver porque ela faleceu quando eu era muito pequena. Restou-me a foto. E quando olho para ela imagino situações, trejeitos e manias. Ali, perto da minha mãe, olhei para o 3×4 e disse mentalmente: “Ei, vó! Estou seguindo a sina; a senhora deve saber.”

Senti um aperto no peito quando me deparei com minha foto de anjo na coroação de Maria, representada pela minha melhor amiga da escola. Ali foi uma das primeiras vezes — ainda que desconfie que seja a primeira — em que cantei sozinha uma canção enquanto colocava uma palma entre as mãos de Nossa Senhora. Lembro dos olhares atentos, inclusive de beatos que gostaram de me ouvir cantar. Queria lembrar a música; quis lembrar os nomes dos vários integrantes da foto; não veio e não viria. Acabava de encontrar meus projetos científicos, resumos e tantos outros estudos aos quais me dediquei na faculdade. Reencontrar Wittgenstein deu um frio na barriga. Se o nome lhe soa estranho, saiba que é normal; mas saiba que se trata de um grande filósofo da linguagem ao qual me dediquei durante minha iniciação científica. A paixão pela linguagem me levou inconscientemente à filosofia, onde fiz morada em um lar com jardim florido.

Quando passei para a segunda caixa, não foi muito diferente: mais lembranças! Encontrei uma mensagem carinhosa da minha primeira professora, Eliane, quando estava na pré-escola no Professor Lellis. Foi em Alegre onde tudo começou! Atrás havia um exercício de formar sílabas na folha do caderno — meus primeiros contornos, longínquos no espaço-tempo. Minha letra agora é outra; do jeitinho que os grafologistas gostam! Entre cursiva, de forma e mista ela mudou muito com o tempo — radicalmente.

Tantos anos ali guardados: quietos e preservados de qualquer grão de poeira; intensos anos vivenciados como cada qual pediu. Obedeci e resgato a linha do tempo com lembranças fidedignas; o sentimento puro e exato com cada expectativa e espera passiva dos momentos. Gosto de lembrar não para me entristecer, mas para saber que vivenciei.

Separei e organizei cada objeto conforme o sentimento guardado pela lembrança. Os que ficarão foram organizados em uma única caixa; sobrou tanto espaço! Os que serão doados coloquei cuidadosamente em outra pequena caixa de MDF — uma lembrancinha de festa de aniversário infantil. E há os que serão descartados no lixo — é a grande maioria! Uns amasso; outros dobro; alguns rasgo.

Levarei comigo apenas uma pequena parte: fotos do carnaval de Salvador, cartões postais, DVDs com arquivos de dados, minha medalha e as “Observações filosóficas” de Wittgenstein. Os sentimentos amontoam-se… “Na próxima vez você leva o seu álbum de infância! Aquele com fotos de quando era bebê”, disse minha mãe conferindo toda aquela arrumação. Sim! Da próxima vez… Há o álbum de infância… Preciso me recuperar para me reencontrar com o tempo da pureza.

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