Dizer não é dizer sim

 


A primeira vez que ouvi esta frase experimentei mais de uma sensação: graça (pelo antagonismo), torpor (porque gosto dos jogos de palavras), amenidade (porque soava como uma aconchegante brisa marinha).

Sim, na infância e adolescência, do caminhar entre as décadas de 1980 e 1990 eu, como tantos outros ouvíamos Kid Abelha e sinto saudades do sucesso “lembrança do passado que passou por onde mesmo?”.

Não, eu não vou falar de música, pois hoje tenho que ficar insensível. Eu tenho um encontro importante e estou ansiosa porque é difícil. Não será a primeira e nem tampouco a última vez que a encontrarei, mas a minha percepção sobre os seus modos e antimodos tem lá o seu caráter de novidade.

Sim, ela gosta da rotina e confesso que admiro esta coisa de previsibilidade e talvez por isso mesmo, sua presença tenha se tornado constante, desde os pequenos encontros até os grandes eventos da High Society. É… a velha coroa enxuta está em grande fase e não vai demorar muito para se chegar ao auge.

Sim, a mui querida Ignorância está inteirona e cheia de gás deixando muitas mocinhas em qualquer lugar de desfoque (lê-se conhecimento, respeito e educação). Parafraseando “nunca na história desse país se viu” projeção igual.

A Ignorância, em sua vitalidade, é ainda tímida e já tentou, por vezes, se tornar mais reclusa e só de pensar em todos os esforços empregados ela transpira à minha frente. Sou solidária e transpiro também.

A vida tem sido muito difícil e é preciso ter tato para conversar com a Ignorância, já que bipolarmente ela explode e tem acessos improváveis de fúria. Temo…

A Ignorância não é contraditória, apenas passional ou visceral demais para ficar sempre na mesma posição – e isso é demasiado cansativo!

Nem menos, nem mais, quando ela diz não é porque se trata de uma afirmação – dizer não é dizer sim. E isto é notório em seus milhares de fãs e seguidores que, para qualquer informação recebida, a negação é a resposta devolvida. É um modo incrivelmente automatizado, mas não fazem por mal – são hábitos enraizados e só!

Quero segui-la porque ela é por demais sedutora e temo cair em queda livre às suas amarras. Ainda mais que percebi o quanto ela é deturpada (deve ser o problema da fama), por seguir os conselhos de sua vizinha Maldade. “Deveria deixar como tudo agora está e observar o movimento natural das coisas”.

Sim, a Ignorância é vizinha da Maldade e são de parede e meia. E entre elas não existem meias verdades – é tudo nu e cru! Os seus seguidores tem poeira nos olhos e ela carinhosamente os chama de IgnorAmantes, os quais impreterivelmente se enchem e transbordam em vaidades.

A Ignorância é mãe e toda mãe tem o seu jeito único e às vezes estranho de amar (é amor demais!), mesmo que seus filhos não a compreendam e deturpam a sua imagem, pois que os filhos sempre acham que sabem mais e as mães, donas de suas existências, compreendem mais.

Sim, ela é zelosa e gentilmente concede luminosos conselhos aos seus rebentos: Façam assim, pensem assim, ajam assim!

Ouço-a calada e ela se sente mais forte, bela e senhora de si. Aproxima-se de mim e sussurra um segredo: “Ei coisinha, quero te dizer só uma coisa: não machuque e nem faça nenhum dos meus pequenos sofrerem que me transformo! Eles são felizes e prezo muito por isso. Gostam de comer, dormir, ouvir músicas em altos decibéis, são convictos em suas ilusões e querem se reproduzir sempre, para que meus novos netos desfrutem de tudo isso. Não quero que sofram, entende?”.

Mal balanço a cabeça e prefiro o conforto do silêncio. Com a Ignorância piso em ovos. Sou, para tanto, tolerante. E, ao mesmo tempo, penso em todas as intolerâncias vistas, vivenciadas, vividas, ouvidas e sabidas!

Agora compreendo o antagonismo do “Dizer não é dizer sim” e que os IgnorAmantes são seres apaixonados, mas possuem conflitos psicológicos difíceis, relacionados a alta, média e baixa estima.

Não posso, não devo, como te aconselho a também não proceder no ímpeto de suas vis paixões. Os IgnorAmantes incompreensivelmente devem ser compreendidos e repugnantemente amados, eles negam tudo, principalmente, aquilo que sabem em obediência a Mãe que encoraja-os na humildade.

Quem os afronta e insensivelmente os chama de ignorantes são reconhecidos a priori ou a posteriori como os arrogantes e quanto terrível é este embate. Melhor não provocar lágrimas e nem mágoas. É desassossego!

Entre o sim e o não sempre cabe o talvez. E o talvez carrega consigo uma pequena dúvida que é para serenar qualquer outra dúvida maior e pedir carinho nos conflitos.

Talvez… Talvez os ignorantes sejam só IgnorAmantes e aqueles, por ora, arrogantes são os mal interpretados em qualquer situação. E quanto a Ignorância? Esta é a senhora de si. Fica o dito pelo não dito. Sim, talvez, não. Talvez dizer não seja dizer sim.


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