O cultivo da arteira



Ler é uma atividade essencial na vida do escritor, assim como a água é para o corpo. Gera tanta sede…

Após o café da manhã, leio o jornal, depois a revista e mais algum livro escolhido no momento (às vezes até dois, conforme a necessidade). Depois escrevo.

Acesso à revista* e me deparo com um artigo sobre agricultura sintrópica. Sintrópica… Fiquei curiosa e surpresa (não tenho certeza se foi mesmo nessa ordem).

Sintrópica… Consulto o dicionário. Sim, faço isso desde sempre, não perco a mania. Ah, sintrópica não é um verbete. Que besteira! É só ler o artigo que, no início, no mais tardar segundo ou terceiro parágrafo encontrarei a definição.

Veja bem. O autor começou com a semente de gergelim, a qual nunca parei para notar e lhe conferir os verdadeiros préstimos. Depois resolveu falar um pouco (só um pouco) sobre agricultura sustentável. E foi exatamente aí que minha mente começou a trazer ideias. Pensando bem, foram imagens, ou melhor, lembranças como uma apresentação de slides.

Retorno a infância. Quando tinha lá meus nove anos. No quintal de minha casa havia uma mangueira e uma bananeira. Meu pai gostava de plantar, mas não aproveitou o terreno. Creio que era devido à aridez da terra. Dura, seca e de difícil escavação. Isso desanima…

E continuo a leitura do artigo. O autor fala de um estudioso que descobriu durante sua trajetória acadêmica o trabalho de Ernst Götsch, um geneticista suíço que se radicou na Bahia, nos idos de 1982…

Com os meus pais estava erradicada naquela casa, em Setiba, com aquele terreno, sobre o solo duro do quintal que sustentava todas as dificuldades que enfrentávamos.

Não me lembro exatamente como, mas invoquei com a parte mais dura do solo, a que recebia mais raios solares, e decidi que ali faria um canteiro. De quê, não havia pensado. Mas recuperaria aquele solo. Talvez não estivesse tão perdido assim. Tornei-me obcecada com aquela ideia. Aos nove anos.

Como estudava pela manhã, ocupar-me-ia com o projeto pela tarde. Comecei por cercar o espaço como fazia o meu pai. Escolhi algumas madeiras mais fortes que foram utilizadas na construção da casa. Aquelas piores, principalmente as trincadas, aproveitei para utilizá-las como estacas. Assim, demarquei o território. O passo seguinte era organizar a terra em seu interior. E esta parte foi a mais difícil. Quando peguei a enxada e golpeei a terra solta, a batida foi seca. O barulho, idem.

Mal moveu a pouca terra solta da superfície. A enxada não entrou. Pensei que faltara força da minha parte. Concentrei-me, respirei fundo e golpeei com mais força. Inútil. Nenhuma evolução. Esperei mais alguns minutos para me recuperar e tentei novamente, com mais vontade do que força. Nada.

Devo ter insistido por mais umas três vezes. Sem sucesso. Pensei em jogar um pouco de água para “amolecer” a terra. Fiz. Não funcionou. O próximo passo era desistir. Guardar as ferramentas. Desmontar o canteiro e disfarçar o meu fracasso. Limpar-me e esquecer. Mas o mantive por cansaço, já que “depois daria jeito”. Desisti do projeto por alguns dias. Porém, era só chegar à varanda que meus olhos voltavam-se imediatamente para ele…

Ainda o autor do artigo discorria que “o método daquele tipo de agricultura proporcionava uma espécie de reflorestamento de ambientes degradantes com o plantio paralelo”… Teve um dia que decidi andar no quintal. Deixei-me perder em cada parte. Quando me aproximei da mangueira vi dezenas de suas folhas espalhadas pelo chão. Parei. Movi algumas com o pé e depois me abaixei para mexer outras com alguns pedaços de tijolos quebrados. Era impressionante o quanto a terra estava úmida e fofa.

Ali mesmo surgiu uma ideia e a coloquei em prática: recolhi o máximo de folhas e gravetos possíveis e espalhei sobre o canteiro, como se cobre um delicioso bolo de cenoura com uma calda de chocolate. Deixei-o “descansar” por três dias. No quarto, resolvi remover uma pequena parte para observar como estava o solo. Havia amaciado um pouco.

Animada, acrescentei gravetos e folhas e, nos dois dias seguintes, a umidade começava a se revelar. Nessa empreitada achei melhor misturar. Peguei a enxada e comecei a “furar” o solo do canteiro misturando terra macia e aquela cobertura vegetal que inventara, e depois acrescentei nova camada de folhas e gravetos, deixando o solo descansar mais um pouco. Ao final de uma semana toda aquela terra estava fofa como bolo bom e com a ilustre presença de minhocas. Enfim, o solo estava fértil.

Estava tão obcecada em recuperá-lo que não havia pensado se, por acaso, tivesse sucesso, o que plantaria ali. Lembrei que meu pai tinha o costume de guardar sementes. Peguei algumas poucas de abóbora e um saquinho com as de alface. Distribui harmoniosamente de forma que crescessem e se desenvolvessem com espaço.

Fato é que surpreendi meus pais com a mais improvável das atitudes infantis. Ainda mais, partindo de uma menina. Dias depois cheguei a ver o meu pai aguando o canteiro. Senti orgulho de mim mesma.

Por muito tempo, eles acreditaram que eu estudaria Agronomia, como fez o meu primo Carlos, por parte de pai. Mas não. Tornei-me no que jamais imaginaram: escritora. Eis uma lembrança prodígio que me saca o sorriso pelo canto da boca…

Estava me esquecendo sobre o artigo da revista. Como “viajei” nas lembranças precisei reler. Estava no quarto parágrafo. Agricultura sintrópica, o método empregado que permite o reflorestamento das regiões degradadas. É isso mesmo!

*Artigo “Planetas Terra”, de Armando Antenore. Revista Piauí, edição 217. Outubro de 2024

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