Os sussurros do Pão de Açúcar



Certa vez, observei duas tias conversarem sobre os avessos da vida, suas dificuldades e desilusões. Não foi uma tarefa agradável, mas necessária. Observar o cotidiano com todas as suas mazelas detalhadas é tarefa minha que abraço com fé.

Em algum momento de tão sólida discussão, naquele instante em que uma quer provar a outra que sofreu mais, eis que uma proferiu uma frase semelhante a lança do destino “Perdoe-me, mas isso tudo que você acabou de me dizer me fez pensar se conheces Deus.” De tão inesperada e improvável consideração sorvei meu café com pressa, enquanto aquela que cabia responder respirou mais fundo para assegurar o controle da situação (e de sua própria vontade) e responder “Claro que sim, ora bolas!”.

Bons anos se passaram e por semelhante tempo esqueci tal fato. Mas, em uma certa manhã, de um belo domingo ensolarado, daqueles poucos em que se presta a devida atenção, estava eu dentro de uma aeronave no aeroporto de Santos Dumont (RJ), em uma conexão.

Taxiava. A aeronave deslizava pela pista. Invadidos cada qual pelo barulho denso e constante das turbinas do ATR-72, buscávamos, ao próprio tempo e jeito, uma posição confortável. Resolvi entregar-me à poltrona, mas sem esquecer-me da janela.

Quem ainda não teve o deleite recomendo que providencie o quanto antes uma passagem que lhe permita, ao menos, uma conexão para observar por si mesmo tudo o que digo, e um pouco mais. É notório que caso se informe com alguém mais próximo das coisas do Rio poderá ouvir que o aeroporto se encontra em dita “localização privilegiada” e de “fácil acesso”, por estar na região central da cidade. Isso é insuficiente.

Poder-se-ia mencionar que o aeroporto foi construído sobre um aterro, o qual é próximo do Morro Cara de Cão, da ponte Rio-Niterói e com vistas ainda para o Pão de Açúcar. Isso é geografia. Ou ainda que o mesmo, no passado, por volta da década de 1930, era o atracadouro de hidroaviões, que faziam rotas nacionais e internacionais, entre eles, a Panair. Por ora, isso é história.

Por agora, o ATR-72. Taxiava. Parou logo que alcançou a cabeceira. Faltava manobrar à direita e ficar de frente para a pista. Mas não, permaneceu “de lado” por longos minutos. Certamente o piloto aguardava alguma autorização da torre de controle. Distraio. Estou voltada a mim. Não sei exatamente o que penso. Os minutos passam, se acumulam. Inesperadamente, burburinhos e movimentos de corpos se misturam e intentam ultrapassar o barulho das turbinas. Turbulência. Dei por mim e instintivamente olhei à janela. Não era possível. Irreal.

Estávamos diante do icônico Pão de Açúcar, o Morro Monumental da cidade carioca, partícipe do seu nascimento. Discreto e imponente, entre o azul e o verde, os intensos raios solares o vestiam completamente semelhante a labuta nas alcovas em que os serviçais adornavam os seus amos. A incompetente janela, janelinha do ATR-72 não enquadrava a imagem corretamente. Era preciso se aproximar do vidro e correr o risco de embaçá-lo com a própria respiração para olhar melhor o majestoso morro. Neste jogo de cintura improvável afivelada pelo cinto de segurança é preciso encontrar uma posição. A melhor possível é a diagonal. Assim me disponho.

Observo sua base. Parto agora para o topo. Entre ambos são necessários pares de segundos para contemplá-lo. Não sei quantos minutos restam para aproveitar a oportunidade. Esqueço o tempo. Contemplo. O azul agora é verde, ou será que o verde azulou? É azul-turquesa ou verde-mar? Este não. O mar é azul. Outro azul. Azul marinho. Preciso me atentar para não me confundir. Agora, no meio, surgem pontos esbranquiçados. São brancos mesmo. Movem-se. São aves. Sobem e descem. Pouso ou decolagem? O ATR-72 mantém-se parado. Tudo parou. Também parei. Burburinhos dos demais passageiros se dissolvem a minha percepção. Das turbinas, idem. Não sinto minha respiração. Estou inerte.

A janelinha não consegue abarcar o Morro, nem em tamanho, nem em largura. Sinto-me como ela, pequena. O Pão de Açúcar é maior. É soberano. Todavia, ele não me causa medo. Existe algo singelo e nevoante nele. Sim. Descobri há pouco que nele existe uma espécie única de orquídea. Trata-se da Bressavala terculata. Só nasce ali. Não entendo de orquídeas, mas penso que nascem em solo escolhido que, um dia, algum cientista com toda a sua ciência poderá explicar. Uma orquídea rara suaviza. Suaviza qualquer brutalidade rochosa.

O Pão de Açúcar é majestoso e gentil. Diferente dos intimidadores morros (paredões) de Ouro Preto, ele é morro carioca, no sentido turístico da palavra. Se estivesse fora da aeronave seria surpreendida com um “Vem!”. Ninguém acreditaria, diria que era só a brisa do Atlântico. Mas posso recordar Heráclito, do seu pensar sobre o movimento, o não-estático das coisas. O Pão de Açúcar, o Morro Monumental movimenta, pois resguarda átomos. Embaso em Heráclito e, atrevidamente digo, que o Morro está a se comunicar. Sussurra na maioria das vezes como se estivesse a cantar um Tom Jobim, uma Bossa Nova de João Gilberto. É um maciço de aspecto jovem, juvenil.

Internamente agito-me. “Vem!”. Posso ouvi-lo novamente com algum sorriso simples, mas sincero. Minha alma canta. Está prestes a cantar? Um samba. O “Samba do Avião” é executado quando se chega ao Galeão, no Santos Dumont não. Por que não há o Samba do Pão de Açúcar ou simplesmente o Samba do Pão? Um samba. O samba. Samba!

Ah, por agora, há barulho. São as turbinas que giram. O ATR-72 gira sobre as rodas e se posiciona de frente, para encarar o Morro Monumental. Atrevimento. Rapidamente dispara, acelera, e em poucos segundos decola. Vamos de encontro. O coração acelera, o estômago esfria, a pressão altera. Aproxima-se um pouco mais e curva-se no ar para iniciar o balé, vulgo procedimento técnico de pouso e decolagem. O ATR-72 gira, inclina-se, ergue o nariz e se endireita no ar. Parece querer se exibir para o Morro. Percebo agora suas nuances por novos ângulos. Ele é belo, a cidade é bela, o recorte geográfico de todo o entorno é esplêndido. Minha alma agora silencia-se para ouvir a lembrança de tantas canções… Tantas.

Distanciamos de tudo isso. Agora é só céu e mar. Tudo flui. E lembro-me da discussão de minhas tias. E me pergunto se conheço Deus, nesse mesmo instante em que entramos em cruzeiro. Não sei. Na verdade, certas perguntas se mantêm por não receberem resposta.

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