Não lembro há quanto tempo estava lá, menos ainda quando comecei a reparar. É a incerteza que brota do costume, o qual gera a crença do conforto.
Mas estava lá. Não sei quantas vezes por ali passei, sei que não foram poucas, por isso a dificuldade em precisar um número, um número qualquer. Ainda há outro problema: a largura. Por ser bem larga, tudo ficava mais distante, nos cantos, pequenos e menores. Os detalhes se tornaram em número maior. Como prestar atenção? Na verdade, é considerar um e esquecer o outro. E há um movimento diário das pessoas, indo e vindo. Alguns parando, tudo se dispersa. Mas foi em algumas das últimas dezenas de vezes que passei a reparar numa quitinete. Existia uma, em uma pequena edificação de dois andares que ia de uma quadra a outra. Quando passei a prestar atenção, observei que no andar superior havia pelo menos três quitinetes. Do térreo, uma quitinete e várias lojinhas, a maioria vazias. A loja que se destacava era ocupada por um material de construção. Na sua frente, bem no meio da calçada, havia mangueiras, vassouras, rodos e carrinhos de mão, que mais ocupavam espaço do que chamavam a atenção de clientes. E, por isso mesmo, a quitinete do térreo ficava escondida, e tinha uma fachada discreta, facilmente confundida com a extensão da loja da esquerda ou da direita.
Só passei a perceber que era uma quitinete e que era habitada quando comecei a passar pela rua, justamente naquela calçada. A motivação era a sombra ofertada às duas e meia da tarde. Minha atenção foi primeiramente capturada pelo odor incômodo de cigarro, que curiosamente se esticava por toda a calçada e chegava à esquina. Nela estava uma mulher mediana em altura, gorda em largura, fumava desprovida de elegância e num sinal claro de ansiedade. Desanoveava cada baforada de costas para a rua e olhando para a parede, com uma das mãos na cintura. Ela, que vestia uma bermuda jeans e uma regata de poliéster, ambas apertadas, lançava para quem quer que fosse, inclusive a parede, um olhar desafiador. Toda vez que por ela passava, evitava olhá-la. Resguardava-me de qualquer grosseria desnecessária. Em tempos estranhos como esse, é bom se precaver.
Em outras passadas por ali, sempre no mesmo horário, passei a ver a mulher em frente à quitinete. Nos dias seguintes, reparei que, na minúscula varanda de entrada da quitinete, sentava-se à porta uma senhora. Dessas frágeis, vestida com roupas de algodão fresco. Sempre de bermuda e blusa, me olhava com alguma benevolência. Passei a cumprimentá-la. — Boa tarde. Ela logo respondia com voz frágil. Isso aconteceu uma, duas, três vezes. Da quarta em diante, deixou de ser ocasional. Pela sexta vez, já passava olhando para a quitinete, procurando discretamente pelo olhar daquela idosa que me inspirava algo de bom, embora inominável, e foi numa dessas dezenas de vezes que associei a mulher de estilo grosseiro a uma espécie de cuidadora dela. E, um pouco mais de vezes, consegui ver a porta da quitinete aberta, e logo no seu interior, uma cama de leito hospitalar. Era o sinal simples e claro de que a idosa dispensava cuidados.
Os poucos móveis percebidos ampliavam o espaço da moradia. Não posso descrevê-los, já que todo detalhe exige uma encarada demorada, e isso não era bom. Era invasivo. Curiosidade é uma coisa; xeretice, outra. E eu estava entre ambos. Quando caminhava pela calçada, era devagar, não muito para disfarçar. A senhora de pele pouco corada, embora bastante enrugada, sempre estava sentada, era falante. Se tinha alguma doença, não apresentava sinal visível. Dava vontade de puxar conversa, percebê-la mais. Ve-la sentada com os pés encolhidos por debaixo da cadeira e as mãos enrugadas, levemente apoiadas sobre os joelhos magros, era de uma fragilidade tocante. Mas não havia como puxar conversa, nem uma pergunta despretensiosa que se servisse de introdução. Qualquer tentativa seria um passo ao fracasso, uma necessidade incompreendida. Era melhor guardar o querer.
E é diferente quando se tem um pretexto. Quando passo nessa mesma rua e sigo reto, lá pela terceira ou quarta quadra, há uma casa com uma pequena varanda em que moram um idoso e um cachorro. Se há mais moradores, não os vejo, mas suspeito que haja. O cachorro, que ora está na rua, ora na varanda, já virou pretexto. E foi porque meu interesse estava todo no cachorro. Carinho e preocupação pelo bicho, também por ser idoso.
Nas quatro quadras anteriores, não. Curiosidade, xeretice.
Por mais algumas vezes, ou melhor, passadas por ali, essas sensações se abrandaram. Era só um "boa tarde" mesmo. Pouco tempo depois, sonhei que passava pelo local e o vi totalmente fechado. Um silêncio de luto. Não demorou muito, e, em poucos dias, passei por lá em outro horário. Pude ver, de soslaio, que a cuidadora grosseira arrumava algumas coisas, talvez guardasse alguns objetos. Como foquei nesta imagem, não lembro de ter visto o leito hospitalar. Pode ser que ainda estivesse lá, como também não.
E foi numa quarta-feira, lembro com a vividez do hoje, que, ao passar às duas e meia pela calçada, deparei-me com a quitinete fechada, como vira em sonho. Assustei-me. E se tivesse acontecido alguma coisa? Será que a idosa... Não era bom pensar. E como não pensar? Tudo fechado. Tudo quieto. Poeira se acumulando em meio à sujeirinha que se espalhava pelos cantos. Nada, nenhum sinal. Nenhum vestígio de destino. O entorno permanecia: a loja de material de construção espaçosa, as lojinhas vazias. Uma só assinalava ocupação e abertura em breve. As outras quitinetes continuavam sendo as quitinetes quietas, uma ou outra fresta de janela aberta para evitar poeira, um vasinho ou tapete para indicar que algum humano ali reside, e mais nada.
Passei mais duas vezes por lá. E nem uma placa de "Aluga-se" ou "Vende-se" para consolar. Lembro do leito... será que, na última vez, ele não estava lá? Era para estar, ficava em frente à porta aberta... Minha mente, em conluio com a memória, quer me confundir. E havia o sonho. Tudo fechado. Não era um bom sinal. Sinto tristeza e arrepio. Quero passar novamente por lá. Quem sabe agora descubro? Um sinal. Por menor que seja, é uma pista. É isso. Vale tentar. Disponho-me e sigo confiante. Só falta virar uma rua e adentrar na outra. É na outra. Há burburinhos. Poeira. São as máquinas da prefeitura que retiraram todo o asfalto da rua para substituí-lo por outro, novo, liso. Ninguém entra, ninguém sai. Máquinas espalhadas por toda a rua. Materiais, entulhos e trabalhadores ocupando calçadas. Não posso passar, não posso saber. Ela, a idosa frágil, não está lá na quitinete. Ainda bem, não aguentaria todo esse barulho e poeira bem à sua porta. Também não suporto. O vento, que combina com tudo isso, espalha sujeira. Sinto um ardor no olho direito. É uma poeira reticente que machuca e faz lacrimejar. Seguirei por outra rua.

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