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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026



Se ele não tivesse arrastado tanto os pés, eu não teria percebido a sua chegada. Juro. Sentou-se no banco de concreto gelado, olhou-me e não me cumprimentou. Achei tão feio. Sou de reparar nessas coisas, pois, desde que me entendo por gente, vejo nos idosos o símbolo da sabedoria. Cada ruga, ou mesmo fio de cabelo branco, é uma história, um marco, acertos e erros, a compreensão das coisas e dos seres. Quando não reconheço esses sinais, decepciono-me.

Ele emitiu um leve gemido assim que sentou e se recostou naquele cimento grosso e gelado. Não sei se foi pelo cansaço de tanto arrastar os pés ou pelo choque da temperatura entre o corpo e o cimento. Fiquei em dúvida, permaneci, mas sem encarar para evitar qualquer mal-entendido. Sabe como são essas coisas, nada mais incomoda um ser do que outro lhe encarando. Isso acontece também com os animais: a encarada é sempre sinal de afronta.

Era domingo. Passava das 14 horas e, como em qualquer lugar, a tarde era lenta. E ali, em Iconha, a tarde era sonolenta. Tinha acabado de almoçar e sentia o meu corpo agradecer, pois o almoço espantara a minha dor de cabeça, assim como a lentidão e a fraqueza. Se eu me sentasse, acabaria cochilando, coisa que deveria evitar, mesmo esperando o ônibus no interior. Preferi ficar em pé e recostei minha mochila no banco de cimento frio, pouco distante daquele homem.

Do meu lado esquerdo havia outro banco de madeira, ocupado por um casal de meia-idade apático, que esperava o ônibus. O velho apático estava à minha direita. Eu estava no centro. Não protagonizava. Observava. Era como uma telespectadora cansada em frente à TV à noite, com todo o cansaço diário acumulado. Queria distração, um pouco ao menos. O que se movia devagar à minha frente, principalmente do outro lado da rua, chamava a minha atenção.

No terminal rodoviário, havia muitas pessoas. É de se estranhar por se tratar de domingo, mas eram todas passageiras que esperavam o ônibus para Vitória. Sem esforço, acertei: era previsível. Estranhei quando olhei para a rua lateral do terminal. Havia tanto barulho. Ali, era um centro de convivência da terceira idade, e esses lugares costumam ser mais tranquilos. Observei melhor para ver o que conseguia captar. Bastaram poucos minutos. Era um tipo de culto, sim, um culto protestante com direito a microfone alto e abafado. Havia poucas pausas. Na maior parte do tempo, uma mulher falava. Não sei se não equalizaram o microfone ou se ela o usava colado à boca, mas o que saía era um grunhido, um latido rouco de rottweiler velho e ininteligível. Aquilo durava mais de uma hora e parecia ter começado por volta do meio-dia. Foi o que deu para entender de um homem que tinha sentado para conversar um pouco com o velho apático. Foi o que pareceu. Todo aquele som abafado se misturava com os barulhos dos carros e motos que, mesmo em pouca quantidade, passavam com vontade e força. Era alguma coisa diferente de pressa.

A tarde seguia lenta, cada um se distraía. O casal mantinha conversas interrompidas pelas telas dos celulares. Eu permanecia em pé ao lado do banco de cimento gelado para evitar cochilos; e o velho apático, bom, esse se sentava, levantava-se, conversava com outros velhos conhecidos que se aproximavam. Mas a maior parte do tempo ficava sozinho, à espera, sabe-se lá de quê.

Como estávamos em uma calçada, éramos facilmente atravessados por diferentes pessoas. É claro que, se fosse dia de semana, a quantidade seria maior e, se chovesse, pior. Haveria pessoas com sombrinhas, cujas pontas poderiam ameaçar os olhos e, na melhor das hipóteses, ser molhado com gotas grossas de água canalizadas por elas. Mas aquela tarde de domingo era seca e ensolarada, e a menor quantidade de gente era significativa.

Quando o velho apático se distraiu, veio de longe um menino em uma bicicleta. Eu vi. Era um menino veloz e hábil. Se fosse um homem em uma moto, seria ainda mais habilidoso e ágil, pois iria zigue-zaguear de dar vertigem a quem assistisse.

O menino veio tão veloz sobre a calçada que não deu tempo do velho apático sair de sua distração. O menino passou tão rente ao velho que senti uma brisa moleque. O velho se assustou e, quando se recobrou, começou a resmungar xingamentos ao menino que já se tornara pequeno por estar longe. Nada adiantava. O velho apático, com toda a sua apatia, mantinha-se sentado no banco de cimento duro e gelado, grudado. O banco era a extensão do velho.

A tarde caminhava sem pressa. Tudo estava tão calmo que um pardal pousou na calçada bem à minha frente. Ele dava seus pulinhos para a esquerda e para a direita, olhando de soslaio para mim. Eu o contemplava. Ele percebeu e se aproximou um pouco, depois se afastou. Será que queria brincar comigo? Permaneci imóvel para não assustá-lo. Queria observá-lo mais. É bonito de ver. Sua plumagem, bico, patinhas, o corpinho parrudo (com mais penas do que carne). Dá vontade de pegá-lo, estender a mão como uma retroescavadeira, erguê-lo até a altura dos meus olhos e observá-lo de perto, ver o que não sei dele, admirar-me com alguma novidade, aprender com ele, saber dele. São possibilidades distantes.

Imito o pardal e, de soslaio, percebo que o velho apático não o viu. Mas a mulher da esquerda o contemplou. O pardal tinha remelexo e graça. Num repente, o velho apático o viu e, mesmo não estando perto, pois o bichinho estava mais próximo a mim, bateu o pé no chão com força e espantou a ave serena num susto. O bichinho desapareceu em segundos enquanto o velho apático mantinha sua cara apática. Olhei-o e não disse nada. Olhei a mulher que, como eu, sentiu o momento e preferiu o silêncio. Com certeza pensávamos a mesma coisa: “que velho sem graça”.

domingo, 27 de julho de 2025



 Conheço Marisa há uns 5 anos. Um quinquênio de conversas fiadas e afiadas. Sempre nos esbarramos quando menos esperamos. Tenho reparado que, nos últimos onze meses, ela começou a ser repetitiva. São questões atrasadas: “O síndico precisa morar no condomínio para ser síndico?” ou “O que a fulana, como subsíndica, faz, já que não se vê nenhuma ação concreta?”. Já respondi a essas perguntas todas as vezes anteriores e agora, quando digo: “Fulana é um enfeite”, demonstro, inconscientemente, sinais de cansaço. 
Outras questões atrasadas, como: “Pra mim, quando o X postou no grupo, o que fez…” ou “A vizinha da frente viu quando ele chegou trêbado com uma mulher desconhecida…” me servem de respiro. Já sei até pela tonalidade quando chegam a hora dessas frases. Aproveito para ajeitar o meu relógio, alisar seu pequeno e adorável cão (que sempre vem me cumprimentar) e, o que mais gosto, observar. 
Marisa é visualmente desleixada. Nestes cinco anos, só a vi uma única vez arrumada. Foi num sábado à tarde. Estava lavando o carro quando ela atravessou a garagem. Vinha da cabeleireira com os cabelos quimicamente aloirados e escovados e um vestido longo vermelho. Apressava-se, pois tinha um compromisso. Não fiquei sabendo. Tive tempo somente para dizer: “Oh, a dama de vermelho”. Ela riu e disse: “Estou com pressa, me desculpe, outra hora conversamos”. Sim, deve ter sido umas duas semanas depois; nada sobre o vestido. Ainda bem, senão teria que mentir caso pedisse a minha opinião. E não tenho certeza se seria convincente. Aquele figurino e cabelos me lembravam uma Marilyn Monroe com 55 anos. Era uma perspectiva amadora. 
Depois disso e até mesmo antes, sempre foi a mesma coisa: calças jeans folgadas e desgastadas, shorts jeans de tamanho e numeração traiçoeira (que lhe proporcionavam um aumento de peso virtual), blusinhas de alças finas (que aumentavam e despencavam seus seios), tamancos (saudosos de cores) ou tênis (esportivos demais). Fora o conflito de cores! Se toda roupa envia uma mensagem, as composições de Marisa pedem socorro. Nenhuma peça conversa com a outra; é uma desarmonia só. 
Na semana passada, ela me enviou uma mensagem no WhatsApp. Queria me pagar um dinheiro que eu tinha emprestado. Fui ao seu apartamento buscar. Avisei com antecedência como sinal de bom senso. Quando cheguei, ela logo apareceu na porta. Estava vestida de baby-doll azul claro. A visão causou-me desconforto; sensação contrária à proposta do conjunto. Ela não se intimidou; a tarefa foi delegada a mim. 
Não satisfeita em me pagar, começou a tagarelar. Iniciou os trabalhos de nossas conversas fiadas e afiadas com as fofocas quentes dos últimos dias; até esqueci como ela estava vestida! Fofoca é assim: você lembra uma coisa e esquece-se de outra. Pelos meus cálculos ligeiros (fadados ao erro), o papo esticou por duas horas e, durante esse tempo, não contabilizei o número de ajeitadas que ela deu na alça direita do baby-doll com a mão esquerda. Isso parecia um desconforto; afinal, no lugar dela é o que eu sentiria! 
O baby-doll a traía; ao invés de promover conforto e sensualidade, denunciava-lhe o quanto apreciava as cervejas que regavam todos os seus fins de semana, sempre bem acompanhada de Lady Gaga, Rihanna, Justin Timberlake e vários outros do pop. 
Depois que recebi meu dinheiro, desci… Desci e lembrei! Lembrei de uma vez em que a vi naqueles trajes! Não estou certa se era o mesmo ou da mesma cor; certo é que era do mesmo modelo! E não foi no andar dela; menos ainda no seu apartamento! Foi no térreo, na recepção! Ela passava enquanto eu conversava com dois vizinhos… Veja bem: vizinhos homens! Nós três a vimos atravessar a recepção de baby-doll; ninguém se atreveu a comentar; era o que cabia. 
Mas teve um fato que ocorreu na semana passada: alguém interfonou lá do portão e outro alguém do terceiro andar desceu. O primeiro eu vi; era um homem desconhecido — baixo, gordo e claro — tinha aspecto de prestador de serviços já que trazia junto ao corpo uma bolsa pequena daquelas de viagem… E quem desceu? Alguém com chinelos que batiam na sola do calcanhar — um som que ainda compreendo porque é metálico! O compasso do ritmo é dois por quatro já que quem o calça tem pressa! 
Não demorou muito e um burburinho semelhante ao de abelhas ressoou… Houve um encontro entre quem chegou e quem foi recepcionar! Termino meu café e me prontifico a descer… Bisbilhotar é uma coincidência!
Os primeiros passos — a cada degrau abaixo — me dão uma ideia de que estou prestes a encontrar o ninho do zumbido… No último degrau deparei-me enfim com as duas criaturas — em vez de zangão e abelha — era o prestador de serviço e Marisa minha vizinha!  Ela explicava de modo vago o que ele deveria fazer já que o serviço não era para ela mas sim para outra vizinha que naquele momento estava ausente! Ele mantinha-se atento. Olhava tudo e quando mirava nela fitava somente o olhar. Já Marisa — sempre simpática e educada — era a permanência dos últimos tempos! Ela vestia mais uma vez o baby-doll da semana passada e novamente a tal da alça direita pendia… Era um descabimento!

domingo, 20 de julho de 2025



 “Vejam só que absurdo, esse presidente dos Estados Unidos, Trump, taxar o Brasil. Ele tem que parar de se intrometer nas coisas aqui e se ocupar com o país dele”, disse aquele homem franzino, sentado no banco da rodoviária. Concordei mentalmente, já que não fazia parte da conversa e o desconhecia, assim como as três mulheres com quem ele conversava.
Naquela manhã fria e agradável, o homem franzino, calmo e bem disposto, demonstrava que era informado e atualizado e repassava as últimas notícias sobre as relações comerciais entre os Estados Unidos e o mundo. “Um absurdo” seria a frase que resumiria todo o noticiário da semana: impresso, visualizado, ouvido, curtido e compartilhado. Quem não está preocupado ou zangado está trocando memes, pois esse é o nosso jeitinho de expressarmos o nosso orgulho BR.
Como o virtual e o real nada mais são do que a extensão um do outro, há sempre espaço para a manifestação do contraditório, e foi o que aconteceu naquela manhã fria. Sentado no mesmo banco em que estava o homem franzino, porém de costas, havia um taxista que tinha chegado há uns dez minutos. Distraía-se olhando o pouco movimento que a manhã lhe proporcionava. Mas quando percebeu que bem às suas costas o assunto era política — Brasil, Estados Unidos, Trump e Lula —, o taxista virou-se no ímpeto, como um peão no primeiro giro. E esbravejou: “O Lula tem que ser preso de novo. Ele está acabando com o país. E quem manda é aquele ministro do STF…”, erguendo-se corpulento com o dedo no ar.
Achei que brigaria e chamaria o franzino para as vias de fato. Por sorte, este em nada parecia com Lula e tampouco com o tal ministro; se não, coitado, levaria algum golpe certeiro. O taxista, após erguer o dedo comprido, juntou-o com os demais formando com as duas mãos duas conchas; bateu contra a parte traseira da calça jeans e foi em direção ao táxi.
Se pretendia descansar um pouco naquele banco, foi infeliz. Entrou no carro e saiu sem olhar para ninguém. Em contrapartida, o homem franzino estava perplexo. Ele, que acompanhara a saída do taxista em silêncio, permaneceu estupefato por alguns segundos. As mulheres também. Eu permaneci.
Quando o homem franzino, com toda a sua franzidez, retomou a si mesmo, começou a dizer: “Vocês viram isso? A gente aqui conversando… E ele chegou, não falou nem um bom dia… Eu não gosto de falta de educação… Sou educado e respeito todo mundo…” As mulheres concordaram. Até eu, em meu íntimo.
Era um momento de apaziguar, retomar o curso ou iniciar outro mais ameno. Mas o homem franzino repetia. Com o acréscimo ou decréscimo de uma ou duas palavras, ele voltaria a repetir. Foram mais uma, duas, três… sem cessar. Tornara-se previsível. Era o homem franzino repetitivo. Incansável. As mulheres que antes falavam agora só balbuciavam; na certa estavam cansadas. Eu me prontificara a fungar; assim sinalizaria também o início discreto do meu cansaço.
“Vocês viram isso?…” Eis mais uma repetição que precedia e antecipava outras. O tédio tomava conta do ambiente como o raio solar que penetra numa sala à tarde. Mas ainda era de manhã; umas sete e meia. E toda essa ruminância se prolongava porque um homem surpreso não conseguiu reagir a tempo à intromissão virulenta de outro.

domingo, 29 de junho de 2025



 Existe um mercadinho na rua Ana Néri que resiste ao tempo. É uma quitanda de bairro, pequena, quieta e imprensada entre os imóveis do entorno. De um lado, há um prédio residencial que lhe rouba a atenção, e do outro, um terreno baldio com uma construção abandonada, que desvia qualquer resquício de atenção. O mercadinho carioca persiste.
Desde que me lembro, já teve a fachada verde. Depois trocaram para amarelo, vermelho com branco e agora recebeu um azul forte. Acho que foi proposital, pois destaca os cartazes afixados de cima a baixo, as promoções do dia e da semana. Estas ficam mais no alto, acima do batente, e aquelas na altura dos ombros de quem entra. Assim, poupam esforços na troca dos cartazes e induzem o cliente a comprar exatamente os produtos “sugeridos”.
Passei a prestar atenção no mercadinho recentemente, quando notei que estava com um letreiro novo, cujo nome era (ou melhor, é) Celina Vargas. Entre estranheza e surpresa, balbuciava: “Celina Vargas…”, “Celina Vargas…”. Rosaline, ao meu lado, achou graça de minha expressão confusa e quis saber se o tal nome tinha a ver com algum conterrâneo meu, pois Celina é distrito de Alegre. Respondi-lhe que não; tinha a ver com outra coisa, talvez uma pessoa, mas quem?
Nada vinha à minha mente e, ao mesmo tempo, aquele nome soava familiar. Quando isso acontece, tomo a decisão de desistir momentaneamente. Às vezes um breve distanciamento pode trazer resposta quando menos se imagina.
Arrisco dizer que devo ter me esquecido, pois o tal distanciamento durou alguns dias até que, de modo imprevisível, deparei-me com um livro sobre Alzira Vargas, a filha e também chefe de gabinete de Getúlio Vargas. E como um estalo lembrei que Celina Vargas é filha de Alzira e neta de Getúlio. Mas a resposta trouxe uma nova pergunta: por que o mercadinho se chamava Celina Vargas?
As homenagens são conferidas a Getúlio, o qual nomeia avenidas, escolas e repartições públicas. Não lembro de ver nada parecido com Alzira e mais improvável ainda com Celina. E se tratando de quitanda era duplamente improvável (ou seria triplamente?).
Agora era minha vez de perguntar a Rosaline: “Por quê?”. “Bom, talvez seja pelo nome do bairro que é Celina Vargas”, arriscou com imprecisão. Bairro chamado Celina Vargas? A sucessão de perguntas não indicava um fim. Era mais fácil discutir o preço do quilo de tomate.
Para evitar maiores dissabores, achei melhor pesquisar. E realmente Rosaline tinha razão. O bairro chamava-se Celina Vargas. Digitei no buscador do navegador “bairro Celina Vargas”. Nos resultados da pesquisa o primeiro a aparecer foi um mapa da região. Em seguida, um link da Wikipedia que pouco dizia; apenas a inserção do nome na listagem dos bairros. No terceiro apareceu um blog. Animei-me. Quando cliquei só vi uma listagem agora de fotos: casarios antigos, praças e monumentos de outros bairros. Outro link abaixo não ajudava: eram anúncios imobiliários ao redor e notícias antigas sobre feitos da prefeitura como a troca da iluminação pública.
Estava prestes a desistir. Por um lastro quis acessar a segunda página de resultados. Fiz isso e encontrei mais um link de um blog. Cliquei com esperança. Além de várias fotos antigas do bairro, o pouco texto disponibilizado fazia severas críticas ao abandono por parte da prefeitura “que era um absurdo; uma vergonha”. Lia em voz alta como meu singelo gesto de protesto e revolta.
Eu estava cansada; ligeiramente cansada. Desejava agora, mais do que qualquer antes, que aquele mercadinho tivesse outro nome; quiçá retomasse o anterior: “quitanda dos coqueiros”; pois à sua frente, dividindo a rua Ana Néri, havia uma fileira de coqueiros que nada sombreavam mas traziam sentido.
Mas não; queriam inovar, fazer diferente; mostrar que agora tudo era novo. O mercadinho podia receber o nome do seu dono (que nem imagino qual seja) ou só o sobrenome. Ainda assim poderia ser lembrado como um ponto de referência direto (aquele mercadinho dos coqueiros) ou indireto (fica lá perto do mercadinho na rua Ana Néri); também seria válido “o mercadinho perto do boteco” como “aquela quitanda perto da loja de 1,99”.
Mas não! Preferem o nome do bairro não por homenagem, mas por preguiça. Quem foi Celina Vargas? Ninguém cuja história despertou curiosidade! Por agora, o que se sabe é que o “quilo de tomate está a R$ 5,99”, como anuncia o carro de som, lento e alto ao percorrer os bairros da cidade, alertando que a “promoção é só essa semana”. Isso é o que importa.

domingo, 22 de junho de 2025



 Quando menos esperava, ela aparecia. Às vezes, era às 9 horas; em outras, às 15 horas. Tinha dia que era nos dois horários e, em algum outro, me dava paz. Era arriscado. Tudo bem que ela tomava seus cuidados, mas, mesmo assim, eu temia. E se sobrasse para mim?
A maior parte das vezes, ela ficava no primeiro andar. Quando não estava organizando o estoque ou as prateleiras, realizava o atendimento no balcão, embora sua função fosse perfumista. Quanto a mim, ficava no segundo andar, numa sala isolada, do lado oposto à da gerente, com papéis (muitos), computador e telefone. Minha função era jurídica: cobrar inadimplentes, devedores, SPC, Serasa e essas coisas. Mas sempre surgiam tarefas extras. Uma delas era fazer serviço de banco. De vez em quando, às 15h40 ou no mais tardar às 15h45, ela aparecia na minha sala para avisar. Ela também era incumbida desse bônus.
Gostava dela, mesmo depois de descobrir que não era minha amiga. Quando constatei isso, senti-me frustrada. Ela era apenas mais uma colega de trabalho como as demais. Mas me divertia com seu estado de graça apaixonado, que lhe fazia parecer algum filhote. Qual? Não sei. Mamífero era o que mais combinava.
Bom, observei aqui que até agora não disse o nome dela e quando isso falta, acaba faltando muita coisa. Taciana; seu nome era Taciana. Era mais alta do que eu, uns 10 centímetros. Pele bonita e branca por sorte; cabelos negros forçados por química, compridos e lisos. Seria bela se não fosse bruta. E ela tinha uma mão pesada. Lembro que quando fazia alguma brincadeira e ela reagia com ar de contrariedade, respondia com um tapão daqueles ardidos.
Ficava doce mesmo quando chegava à minha sala às 9 horas ou às 15 horas. É que ela escapulia para usar o telefone e ligar para o namorado. Se bem que não sei (ou melhor, não lembro) qual era o patamar de seriedade – ou de responsabilidade, como se diz hoje – pois parecia que toda e qualquer iniciativa partia somente dela.
Quando vinha às escondidas ligar para ele – que nunca soube como era, pois parecia não morar na mesma cidade e nunca vi nem uma única foto –, abria as câmeras de vigilância da loja para ver se ninguém apareceria para nos flagrar. Esse “ninguém” se tratava da gerente e dos patrões.
Aquilo se tornara cansativo e eu não tinha alternativas. A sala não podia ficar trancada e o telefone não era de uso restrito. Eu queria evitar conflito, pois era desnecessário e dependíamos uma da outra mutuamente e diariamente. Fora que brigar com pessoa apaixonada traz desgaste e incita traição. No fim, clamava por ideia e sorte; exatamente nesta ordem.
E tinha o fato de que além de ser obrigada a ouvir a ligação melosa – pois não podia sair da sala – tinha ainda o pré e o pós-ligação com toda aquela narrativa feminina de desabafo: “Será que ele está afim? Você acha que ele está levando a sério? Será que ele está apaixonado por mim? Que presente dou a ele? Me ajuda; o que devo falar para ele na próxima vez?”
Um dia, Taciana apareceu na minha sala pisando forte igual àqueles soldados em marcha de desfile cívico. A cara brava retinha a respiração; ela estava pronta para algo: explodir.
Bruta como sempre, se aproximou ligeira do telefone e por pouco não pisou no meu pé machucado por um incômodo calo. Brava, me disse que hoje seria o dia; que não dava mais e que acabaria com aquele tal namoro. “Que isso…”, “Que aquilo…” Falava e se movimentava. Com suas mãos grandes, unhas impecavelmente vermelhas e pesadas procurava pelo pequeno papel com o número de telefone do homem; por pouco não rasgou o papel judiado de tão amassado.
Nada disse, mas fiquei a pensar: “Será que finalmente terei sossego?”. E ela não parava de falar: “Cansei! Sabe… Vou falar um monte de coisa… O que ele pensa que é?”.
De repente, ela foi interrompida; alguém a atendera. Emitiu um reticente “oi”. Era ele! Observei suas expressões faciais; todo o enrubescimento havia desaparecido! Era engraçado perceber que ela ficara desarmada: seu tom de voz assumiu um tom doce e seus olhos se amendoaram: “Oi… Como você está?”.
Não tinha jeito! Olhei mais uma vez para ela e senti minha paz adiada; restou-me retomar aos papéis e às cobranças.

domingo, 15 de junho de 2025



 O estacionamento do supermercado estava na penumbra. Não era só naquela noite; eram todas as noites. Achava estranho e perigoso, já que ficava perto da avenida principal e tinha três acessos fáceis de um lado ao outro, onde adentrar ou sair era feito com toda a discrição. Além disso, um terço das vagas era sombreado pelas árvores, e quem se arriscasse a estacionar ali não só deixava o carro em pleno breu, mas também o entregava à sorte de não ser acertado por algum galho. Já presenciei algumas quedas, mas não os acertos; menos mal.
Naquela noite, adentrei apressadamente o supermercado e, por isso, peguei o cartão de débito ao invés do de crédito. Precisei retornar ao carro para trocar. E foi nesse momento que, em meio à penumbra do estacionamento, ao escuro do interior do veículo e à minha preguiça em acender a luz interna do teto, tateei como quem faz o sorteio de fichas (havia papéis, controle remoto do som e documentos do carro) quando vi se aproximar um jovem casal. Ambos de altura mediana, magros e de pouca beleza, traziam algum pacote nas mãos. Falavam sem parar, riam nos intervalos de cada frase.
Seria bonito se não pecassem em um detalhe: brincavam com o que não se deveria brincar. Isso ficou visível à medida que a cena se desenrolou bem à minha frente, quando ainda me encontrava dentro do carro organizando a bagunça que fizera para encontrar o cartão de crédito.
Assim que os avistei através do para-brisa, pude vê-los melhor. Cada um tinha um pacote de salgadinhos nas mãos. Pegavam rápido e colocavam na boca, mastigando com um gosto irônico e emitindo um sonoro: “Hum, que delícia esse gostinho de câncer…” E repetiam essa frase com pequenas variações: “delicioso”, “saboroso”; nada agradável. Aquela cena me provocou repugnância e comecei a achá-los mais feios e também imbecis, assim como loucos, desqualificados e desnecessários. Enfim, meu assombro transformou-se em revolta. Onde já se viu falar com a boca cheia: “Hum, que delícia esse gostinho de câncer”?
Eu que cresci ouvindo tantas histórias arrepiantes devido a abusos, blasfêmias e todo tipo de desrespeito não sabia se ali, diante do inusitado e sobressaltada pela infâmia, temia por eles devido às inimagináveis consequências de tão nefasto ato. Era intragável.
E eles não paravam; insistiam com gosto. Pouco me importava se tinham 30, 35 ou menos anos. Eram inconsequentes. Observava-os enquanto eles não me notavam. Melhor assim; caso contrário, deparariam com minha cara enojada.
A esta altura pensava se já não estavam no fim daqueles salgadinhos; se ainda restavam muitos – na certa alguns quebrados – e havia também os farelos. Será que comeriam e exaltariam toda a estupidez? Tornava-se difícil distingui-los à medida que se distanciavam. Mantinham-se lado a lado como dois vultos a se esvaírem no sereno da noite.
Assim que peguei meu cartão, adentrei o supermercado. Logo reparei que o estoque estava escasso. “É que a empresa vai fechar e por isso está vendendo os últimos produtos”, alguém sussurrou às minhas costas; talvez algum cliente ou mesmo um funcionário desolado. Sim, aquele supermercado – que até pouco tempo atraía grande número de clientes – havia falido. Era triste caminhar entre os setores e ver a maioria das prateleiras vazias. Algumas tinham poucos produtos; parte deles estava quebrada, amassada ou até violada. Eram restos.
Na semana seguinte, a empresa fechou definitivamente, deixando todo o amplo espaço em silêncio e escuridão. Quanto àquele casal dos salgadinhos? Nunca mais os vi; desconheço seus destinos.

domingo, 8 de junho de 2025



  Ana Clara é a minha vizinha mais fofa. É uma criança bem moreninha, tem lá seus três ou quatro anos; não sei acertar assim de olho. Embora todas as garotas nascidas aqui no prédio tenham sido batizadas com o mesmo nome, ela não é mais uma. É a fofa e carismática Ana Clara.
A pequena, dependendo do dia e do ângulo que a vejo, apresenta os traços da mãe, cuja tez leve denota notável distração. Já em outros momentos, quando sorri e olha com falsa humildade, é a “cara” do pai. Por enquanto, são belos os traços e permanecerão até a chegada da adolescência.
Ana Clara é uma pequena notável. Certa noite, ao passar perto da vaga deles na garagem do prédio, percebi uma folha de papel branca caída, do tipo A4. Com a curiosidade de menina, aproximei-me para ver. Antes, certifiquei-me de que não havia mais ninguém ao redor, pois seria cabuloso ser vista de cócoras ao lado de um carro que não é o meu olhando para algo no chão.
Naquela folha estava escrito “Certificado” e, após algumas palavras, lá estava o nome: “Ana Clara Getúlio Gonçalves”. Era o nome completo da pequena. A honraria lhe era conferida por ter enfrentado com coragem e bravura a temível prova da agulha. Reli com entonação reticente. Que prova da agulha é essa? Li de novo toda a folha. Olhei atentamente o verso, que nada tinha, e insisti em mais algumas releituras que não me deram nenhuma pista. Seria, por acaso, alguma vacina que ela tinha tomado? Mas não tinha um logo ou um carimbo do posto ou da secretaria de saúde…
E o pior era estar ali jogado ao chão sujo, lançado pelo vento de um lado ao outro, marginalizando qualquer importância. Uma bela memória era renegada. Se a pequena fosse minha filha, guardaria aquele certificado como quem guarda um diploma; afinal, é o símbolo de uma conquista: Ana Clara, a corajosa.
Com o passar dos dias, esqueci o certificado renegado, pois todas as vezes que a via observava seus movimentos. Às vezes dava uns gritinhos; outras vezes acelerava os passos. Não corria; como numa marcha atlética, ela seguia firme e reta em direção ao carro do pai ou aos gatos que transitam pela garagem. Com estes últimos eram desastrosos, já que eles correm em disparada assustados quando a veem se aproximar com os bracinhos abertos; mas ela insiste. Ana Clara é persistente.
Semana passada encontrei-me com ela e a mãe. A pequena estava com um vestido simples de bolinhas e os cabelinhos crespos presos à la chiquinha. Quando me viu esboçou o sorriso dos erês: leve e puro. Gosto de vê-la. É bom encontrá-la. E dessa vez quase lhe chamei de “Corajosa”. A mãe poderia não entender e por não entender deixar passar ou ainda por não me entender perguntar o porquê do uso do adjetivo. Por precaução, achei por bem chamá-la de “dona mocinha”. A sonoridade é boa.
Assim que me ouviu, a pequena se aplumou, ofereceu-me um sorriso sapeca e começou a caminhar pelo corredor. Às vezes colocava um dos bracinhos gordinhos na cintura; ora segurava a ponta do vestidinho. Em todas olhava o chão e a mim com um sorriso que anunciava algum gracejo a qualquer instante, mesmo que não saísse. Ainda assim aguardávamos: a mãe passiva e eu maravilhada com as proezas miúdas da infância.
Chamei-a novamente de “dona mocinha” por mais algumas vezes e ela — a pequena — quando ouvia empinava cada vez mais. A mãe concordava com um sorriso pasmo que sua filha gostava de ser chamada assim. E a pequena demonstrava que se divertia com tudo aquilo; sua mãe e eu éramos meras figurantes.
Ana Clara — pequena e exata — mantinha a postura e vez ou outra balançava a cabeça; parecia que dançaria à nossa frente. Mas não; era tudo o que compreendia e internalizava naquele momento. Mesmo que no futuro não lembrasse; mesmo que sua mãe recordasse os detalhes desse dia; apenas externalizaria de forma sutil e inconsciente algum traço que não ligasse a nada; faltaria certeza: mesmo que esse traço se fizesse presente no andar, no olhar ou no comportamento… ainda que desconfiada não saberia creditar à possibilidade: “Eu lembro desse dia…”, “eu não lembro desse dia…” e só.
Mas ali na construção de sua memória ela passava a mãozinha sobre as chiquinhas do cabelo, olhava para o vestidinho e para o ambiente. Ela — a pequena — que se portava solene em nada lembrava a mesma garotinha que correu pela manhã na garagem com as chaves do carro na mão para entregar ao pai; decerto dadas pela mãe. Por agora na noite fresca ela seguia firme e macia frente à genitora rumo ao seu apartamento. Com a empáfia do pai e a distração da mãe, Ana Clara — munida da imponência de uma modelo de passarela e da leveza de uma bailarina clássica — justificava o título que eu atrevida lhe outorgara: o de mocinha.

Toda apatia será julgada

Se ele não tivesse arrastado tanto os pés, eu não teria percebido a sua chegada. Juro. Sentou-se no banco de concreto gelado, olhou-me e não...

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