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sábado, 14 de março de 2026




 Existem coisas que se sabe, meio que ao longe, que existem, mas ninguém vê. E o mesmo vale para bichos. Lagarto é um bom exemplo. Lembro que, quando vi um pela primeira vez, tive um susto, pois não sabia e julguei apressadamente, devido ao medo, que se tratava de um dragão.


Dragão é um bicho que existe, mas não em Setiba, no Setibão ou no Una. Eles existem na Ásia, talvez na Austrália. Bom, se não for papo furado para desocupado criar fake news.


Na semana passada, eu vi uma tartaruga (ou seria cágado?) saindo de uma casa para seguir a empregada que varria a calçada. Mal o bicho conseguiu dar três passos, e a mulher bruta, numa única vassourada, mandou o pobre danado de volta para dentro do quintal.


A vassoura de piaçaba foi na cara dele. Espero que não tenha atingido os olhos, pois este órgão é muito desprotegido no bicho. Penso agora que tartaruga (ou cágado?) não tem pálpebras. Ou tem? Nos desenhos de gibis ou mesmo da TV, as tartarugas, principalmente as fêmeas, tinham. O desenhista, no auge de sua observação artística, na certa desenhava belas e curvilíneas pálpebras para conferir charme e sensualidade ao bicho. Acho-o engraçado, bicho de cara lambida. Se fosse gente, seria gente sem vergonha, devido à cara lisa, lisinha demais. Lembro de um amigo que tem cara de tartaruga, cara lisa, sabe, mas ele não é sem vergonha; ele tem a cara do Edgar Scandurra. E não toca guitarra. Aprecia Monet e Marcel Proust. Sou grata a ele por ter me apresentado um pouco de cultura, inclusive o próprio Proust, que um dia lerei sem promessa de segunda-feira, mas com intenção genuína aliada à curiosidade, porque agora quero ler Carla Madeira e ver se tudo é realmente rio.


Tartarugas e cágados gostam de água. Acho boa a umidade, principalmente nestas semanas de calor assombroso que quase me fez errar o CPF quando a vendedora no pet shop me pediu para abrir o meu cadastro, depois o meu histórico de compras e, por fim, me dar algum desconto em mais uma ração para cachorros. Lá não encontrei nada para tartarugas, mas tem filhotes de hamsters. Tartaruga deve ter alguma coisa. Prometo prestar atenção na próxima. Se bem que a próxima será daqui umas três ou quatro semanas, e na certa esquecerei. Como ontem, que esqueci de lavar a caminha dos meus cachorros. Sei que aguardam esse momento com certa ansiedade só para depois dormir no limpinho, com os focinhos embrenhados no tecido regado de amaciante. No dia seguinte, eles levantam com preguiça, de pelos macios e cheirosos. Gostaria que isso fosse um sinal de retribuição. São apenas consequências naturais. Ou macias.


Tartaruga não é macia. É lisa. Onde dorme? Será que naquela casa tem alguma caminha para ela? Ou é só um cantinho em que ela, sonolenta, se retrai e se esconde dentro do casco? O casco é o seu cobertor. Se eu tivesse contato próximo com uma e a percebesse toda encolhida, bateria no casco como se bate a porta para ver se ela colocaria o pescoço para fora e qual seria sua reação à minha insolência. Talvez não se importasse tanto, pois, depois da vassourada na cara, imagino que deva levar muitos trancos, inclusive da empregada que, na pressa de terminar logo o serviço, deve confundi-la com algum móvel ou brinquedo ou qualquer outra coisa que não seja casco de... tartaruga.


Ontem passei novamente em frente à sua casa, mas não a vi. Atravessei a rua para adentrar outra que me serviria de atalho para uma terceira, já que precisava passar no Empório de Ervas e comprar tanchagem (essencial para a minha otite). Bestamente, resolvi caminhar pelo lado quente e recebi aqueles raios solares bem na fuça, provocando-me um imediato espirro. Quando estou entregue ao segundo, percebo algum vulto do outro lado da rua, porque vulto se apresenta assim: com distância e no canto do olho (ou rabo de olho). Mas não era espírito; tratava-se de gente encarnada. Dois adolescentes que falavam qualquer coisa maravilhados entre si. Estavam em frente a uma bela casa dessas cheia de verde, de arbustos, de fresquinho gostoso de ficar. Essas coisas não deixam adolescentes surpresos, embora a região seja de um calor desértico. Acontece mais com gente como eu, que não pode ver um lastro de natureza que já quer por ali se alojar. E como não é possível, sonho em um dia, um dia desses vindouros qualquer, viver em um lugar assim. Mas o meu sonho ainda não encontrou um atalho. Enquanto crio uma viseira com minhas mãos para enxergar melhor, percebo que o rapaz aponta para a grama e a menina abre um sorriso. É que vinha ao encontro deles uma tartaruga (ou seria cágado)? Não posso esconder que também fiquei maravilhada. Mais uma? E há poucos metros da casa da outra? Quem se inspirou em quem para adotar aquele bicho? Ou seriam esses mesmos bichos parentes que se avizinham por alguns metros? Se assim for, este é o primogênito, pois assim deduzo, com risco, por achá-lo maior. Mas vai que, por minha ignorância nesse tipo de réptil vertebrado, a diferença de tamanho distingue a tartaruga do cágado? Percebo que os adolescentes também não sabem e perguntam entre si: é tartaruga ou cágado? Como um deles logo saca do bolso da calça um celular, em questão de segundos saberá a resposta. É só dar um Google.


Também estou com o meu no bolso, mas celular é uma coisa que me dá preguiça, ainda mais na rua, caminhando por calçadas íngremes e sol cortinando a minha frente. Deixo para lá e sigo. Quando estou prestes a sair da rua atalho, dou uma olhada para trás. Não dá para ver a casa, menos ainda os adolescentes, pois a rua atalho termina em curva. Tartaruga ou cágado é uma dúvida. Talvez jabuti seja a solução.

sábado, 7 de março de 2026




Não lembro há quanto tempo estava lá, menos ainda quando comecei a reparar. É a incerteza que brota do costume, o qual gera a crença do conforto.
  
Mas estava lá. Não sei quantas vezes por ali passei, sei que não foram poucas, por isso a dificuldade em precisar um número, um número qualquer. Ainda há outro problema: a largura. Por ser bem larga, tudo ficava mais distante, nos cantos, pequenos e menores. Os detalhes se tornaram em número maior. Como prestar atenção? Na verdade, é considerar um e esquecer o outro. E há um movimento diário das pessoas, indo e vindo. Alguns parando, tudo se dispersa. Mas foi em algumas das últimas dezenas de vezes que passei a reparar numa quitinete. Existia uma, em uma pequena edificação de dois andares que ia de uma quadra a outra. Quando passei a prestar atenção, observei que no andar superior havia pelo menos três quitinetes. Do térreo, uma quitinete e várias lojinhas, a maioria vazias. A loja que se destacava era ocupada por um material de construção. Na sua frente, bem no meio da calçada, havia mangueiras, vassouras, rodos e carrinhos de mão, que mais ocupavam espaço do que chamavam a atenção de clientes. E, por isso mesmo, a quitinete do térreo ficava escondida, e tinha uma fachada discreta, facilmente confundida com a extensão da loja da esquerda ou da direita.

Só passei a perceber que era uma quitinete e que era habitada quando comecei a passar pela rua, justamente naquela calçada. A motivação era a sombra ofertada às duas e meia da tarde. Minha atenção foi primeiramente capturada pelo odor incômodo de cigarro, que curiosamente se esticava por toda a calçada e chegava à esquina. Nela estava uma mulher mediana em altura, gorda em largura, fumava desprovida de elegância e num sinal claro de ansiedade. Desanoveava cada baforada de costas para a rua e olhando para a parede, com uma das mãos na cintura. Ela, que vestia uma bermuda jeans e uma regata de poliéster, ambas apertadas, lançava para quem quer que fosse, inclusive a parede, um olhar desafiador. Toda vez que por ela passava, evitava olhá-la. Resguardava-me de qualquer grosseria desnecessária. Em tempos estranhos como esse, é bom se precaver.

Em outras passadas por ali, sempre no mesmo horário, passei a ver a mulher em frente à quitinete. Nos dias seguintes, reparei que, na minúscula varanda de entrada da quitinete, sentava-se à porta uma senhora. Dessas frágeis, vestida com roupas de algodão fresco. Sempre de bermuda e blusa, me olhava com alguma benevolência. Passei a cumprimentá-la. — Boa tarde. Ela logo respondia com voz frágil. Isso aconteceu uma, duas, três vezes. Da quarta em diante, deixou de ser ocasional. Pela sexta vez, já passava olhando para a quitinete, procurando discretamente pelo olhar daquela idosa que me inspirava algo de bom, embora inominável, e foi numa dessas dezenas de vezes que associei a mulher de estilo grosseiro a uma espécie de cuidadora dela. E, um pouco mais de vezes, consegui ver a porta da quitinete aberta, e logo no seu interior, uma cama de leito hospitalar. Era o sinal simples e claro de que a idosa dispensava cuidados.
  
Os poucos móveis percebidos ampliavam o espaço da moradia. Não posso descrevê-los, já que todo detalhe exige uma encarada demorada, e isso não era bom. Era invasivo. Curiosidade é uma coisa; xeretice, outra. E eu estava entre ambos. Quando caminhava pela calçada, era devagar, não muito para disfarçar. A senhora de pele pouco corada, embora bastante enrugada, sempre estava sentada, era falante. Se tinha alguma doença, não apresentava sinal visível. Dava vontade de puxar conversa, percebê-la mais. Ve-la sentada com os pés encolhidos por debaixo da cadeira e as mãos enrugadas, levemente apoiadas sobre os joelhos magros, era de uma fragilidade tocante. Mas não havia como puxar conversa, nem uma pergunta despretensiosa que se servisse de introdução. Qualquer tentativa seria um passo ao fracasso, uma necessidade incompreendida. Era melhor guardar o querer.  

E é diferente quando se tem um pretexto. Quando passo nessa mesma rua e sigo reto, lá pela terceira ou quarta quadra, há uma casa com uma pequena varanda em que moram um idoso e um cachorro. Se há mais moradores, não os vejo, mas suspeito que haja. O cachorro, que ora está na rua, ora na varanda, já virou pretexto. E foi porque meu interesse estava todo no cachorro. Carinho e preocupação pelo bicho, também por ser idoso.  

Nas quatro quadras anteriores, não. Curiosidade, xeretice.  
Por mais algumas vezes, ou melhor, passadas por ali, essas sensações se abrandaram. Era só um "boa tarde" mesmo. Pouco tempo depois, sonhei que passava pelo local e o vi totalmente fechado. Um silêncio de luto. Não demorou muito, e, em poucos dias, passei por lá em outro horário. Pude ver, de soslaio, que a cuidadora grosseira arrumava algumas coisas, talvez guardasse alguns objetos. Como foquei nesta imagem, não lembro de ter visto o leito hospitalar. Pode ser que ainda estivesse lá, como também não.
  
E foi numa quarta-feira, lembro com a vividez do hoje, que, ao passar às duas e meia pela calçada, deparei-me com a quitinete fechada, como vira em sonho. Assustei-me. E se tivesse acontecido alguma coisa? Será que a idosa... Não era bom pensar. E como não pensar? Tudo fechado. Tudo quieto. Poeira se acumulando em meio à sujeirinha que se espalhava pelos cantos. Nada, nenhum sinal. Nenhum vestígio de destino. O entorno permanecia: a loja de material de construção espaçosa, as lojinhas vazias. Uma só assinalava ocupação e abertura em breve. As outras quitinetes continuavam sendo as quitinetes quietas, uma ou outra fresta de janela aberta para evitar poeira, um vasinho ou tapete para indicar que algum humano ali reside, e mais nada.
  
Passei mais duas vezes por lá. E nem uma placa de "Aluga-se" ou "Vende-se" para consolar. Lembro do leito... será que, na última vez, ele não estava lá? Era para estar, ficava em frente à porta aberta... Minha mente, em conluio com a memória, quer me confundir. E havia o sonho. Tudo fechado. Não era um bom sinal. Sinto tristeza e arrepio. Quero passar novamente por lá. Quem sabe agora descubro? Um sinal. Por menor que seja, é uma pista. É isso. Vale tentar. Disponho-me e sigo confiante. Só falta virar uma rua e adentrar na outra. É na outra. Há burburinhos. Poeira. São as máquinas da prefeitura que retiraram todo o asfalto da rua para substituí-lo por outro, novo, liso. Ninguém entra, ninguém sai. Máquinas espalhadas por toda a rua. Materiais, entulhos e trabalhadores ocupando calçadas. Não posso passar, não posso saber. Ela, a idosa frágil, não está lá na quitinete. Ainda bem, não aguentaria todo esse barulho e poeira bem à sua porta. Também não suporto. O vento, que combina com tudo isso, espalha sujeira. Sinto um ardor no olho direito. É uma poeira reticente que machuca e faz lacrimejar. Seguirei por outra rua.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026



Se ele não tivesse arrastado tanto os pés, eu não teria percebido a sua chegada. Juro. Sentou-se no banco de concreto gelado, olhou-me e não me cumprimentou. Achei tão feio. Sou de reparar nessas coisas, pois, desde que me entendo por gente, vejo nos idosos o símbolo da sabedoria. Cada ruga, ou mesmo fio de cabelo branco, é uma história, um marco, acertos e erros, a compreensão das coisas e dos seres. Quando não reconheço esses sinais, decepciono-me.

Ele emitiu um leve gemido assim que sentou e se recostou naquele cimento grosso e gelado. Não sei se foi pelo cansaço de tanto arrastar os pés ou pelo choque da temperatura entre o corpo e o cimento. Fiquei em dúvida, permaneci, mas sem encarar para evitar qualquer mal-entendido. Sabe como são essas coisas, nada mais incomoda um ser do que outro lhe encarando. Isso acontece também com os animais: a encarada é sempre sinal de afronta.

Era domingo. Passava das 14 horas e, como em qualquer lugar, a tarde era lenta. E ali, em Iconha, a tarde era sonolenta. Tinha acabado de almoçar e sentia o meu corpo agradecer, pois o almoço espantara a minha dor de cabeça, assim como a lentidão e a fraqueza. Se eu me sentasse, acabaria cochilando, coisa que deveria evitar, mesmo esperando o ônibus no interior. Preferi ficar em pé e recostei minha mochila no banco de cimento frio, pouco distante daquele homem.

Do meu lado esquerdo havia outro banco de madeira, ocupado por um casal de meia-idade apático, que esperava o ônibus. O velho apático estava à minha direita. Eu estava no centro. Não protagonizava. Observava. Era como uma telespectadora cansada em frente à TV à noite, com todo o cansaço diário acumulado. Queria distração, um pouco ao menos. O que se movia devagar à minha frente, principalmente do outro lado da rua, chamava a minha atenção.

No terminal rodoviário, havia muitas pessoas. É de se estranhar por se tratar de domingo, mas eram todas passageiras que esperavam o ônibus para Vitória. Sem esforço, acertei: era previsível. Estranhei quando olhei para a rua lateral do terminal. Havia tanto barulho. Ali, era um centro de convivência da terceira idade, e esses lugares costumam ser mais tranquilos. Observei melhor para ver o que conseguia captar. Bastaram poucos minutos. Era um tipo de culto, sim, um culto protestante com direito a microfone alto e abafado. Havia poucas pausas. Na maior parte do tempo, uma mulher falava. Não sei se não equalizaram o microfone ou se ela o usava colado à boca, mas o que saía era um grunhido, um latido rouco de rottweiler velho e ininteligível. Aquilo durava mais de uma hora e parecia ter começado por volta do meio-dia. Foi o que deu para entender de um homem que tinha sentado para conversar um pouco com o velho apático. Foi o que pareceu. Todo aquele som abafado se misturava com os barulhos dos carros e motos que, mesmo em pouca quantidade, passavam com vontade e força. Era alguma coisa diferente de pressa.

A tarde seguia lenta, cada um se distraía. O casal mantinha conversas interrompidas pelas telas dos celulares. Eu permanecia em pé ao lado do banco de cimento gelado para evitar cochilos; e o velho apático, bom, esse se sentava, levantava-se, conversava com outros velhos conhecidos que se aproximavam. Mas a maior parte do tempo ficava sozinho, à espera, sabe-se lá de quê.

Como estávamos em uma calçada, éramos facilmente atravessados por diferentes pessoas. É claro que, se fosse dia de semana, a quantidade seria maior e, se chovesse, pior. Haveria pessoas com sombrinhas, cujas pontas poderiam ameaçar os olhos e, na melhor das hipóteses, ser molhado com gotas grossas de água canalizadas por elas. Mas aquela tarde de domingo era seca e ensolarada, e a menor quantidade de gente era significativa.

Quando o velho apático se distraiu, veio de longe um menino em uma bicicleta. Eu vi. Era um menino veloz e hábil. Se fosse um homem em uma moto, seria ainda mais habilidoso e ágil, pois iria zigue-zaguear de dar vertigem a quem assistisse.

O menino veio tão veloz sobre a calçada que não deu tempo do velho apático sair de sua distração. O menino passou tão rente ao velho que senti uma brisa moleque. O velho se assustou e, quando se recobrou, começou a resmungar xingamentos ao menino que já se tornara pequeno por estar longe. Nada adiantava. O velho apático, com toda a sua apatia, mantinha-se sentado no banco de cimento duro e gelado, grudado. O banco era a extensão do velho.

A tarde caminhava sem pressa. Tudo estava tão calmo que um pardal pousou na calçada bem à minha frente. Ele dava seus pulinhos para a esquerda e para a direita, olhando de soslaio para mim. Eu o contemplava. Ele percebeu e se aproximou um pouco, depois se afastou. Será que queria brincar comigo? Permaneci imóvel para não assustá-lo. Queria observá-lo mais. É bonito de ver. Sua plumagem, bico, patinhas, o corpinho parrudo (com mais penas do que carne). Dá vontade de pegá-lo, estender a mão como uma retroescavadeira, erguê-lo até a altura dos meus olhos e observá-lo de perto, ver o que não sei dele, admirar-me com alguma novidade, aprender com ele, saber dele. São possibilidades distantes.

Imito o pardal e, de soslaio, percebo que o velho apático não o viu. Mas a mulher da esquerda o contemplou. O pardal tinha remelexo e graça. Num repente, o velho apático o viu e, mesmo não estando perto, pois o bichinho estava mais próximo a mim, bateu o pé no chão com força e espantou a ave serena num susto. O bichinho desapareceu em segundos enquanto o velho apático mantinha sua cara apática. Olhei-o e não disse nada. Olhei a mulher que, como eu, sentiu o momento e preferiu o silêncio. Com certeza pensávamos a mesma coisa: “que velho sem graça”.

domingo, 27 de julho de 2025



 Conheço Marisa há uns 5 anos. Um quinquênio de conversas fiadas e afiadas. Sempre nos esbarramos quando menos esperamos. Tenho reparado que, nos últimos onze meses, ela começou a ser repetitiva. São questões atrasadas: “O síndico precisa morar no condomínio para ser síndico?” ou “O que a fulana, como subsíndica, faz, já que não se vê nenhuma ação concreta?”. Já respondi a essas perguntas todas as vezes anteriores e agora, quando digo: “Fulana é um enfeite”, demonstro, inconscientemente, sinais de cansaço. 
Outras questões atrasadas, como: “Pra mim, quando o X postou no grupo, o que fez…” ou “A vizinha da frente viu quando ele chegou trêbado com uma mulher desconhecida…” me servem de respiro. Já sei até pela tonalidade quando chegam a hora dessas frases. Aproveito para ajeitar o meu relógio, alisar seu pequeno e adorável cão (que sempre vem me cumprimentar) e, o que mais gosto, observar. 
Marisa é visualmente desleixada. Nestes cinco anos, só a vi uma única vez arrumada. Foi num sábado à tarde. Estava lavando o carro quando ela atravessou a garagem. Vinha da cabeleireira com os cabelos quimicamente aloirados e escovados e um vestido longo vermelho. Apressava-se, pois tinha um compromisso. Não fiquei sabendo. Tive tempo somente para dizer: “Oh, a dama de vermelho”. Ela riu e disse: “Estou com pressa, me desculpe, outra hora conversamos”. Sim, deve ter sido umas duas semanas depois; nada sobre o vestido. Ainda bem, senão teria que mentir caso pedisse a minha opinião. E não tenho certeza se seria convincente. Aquele figurino e cabelos me lembravam uma Marilyn Monroe com 55 anos. Era uma perspectiva amadora. 
Depois disso e até mesmo antes, sempre foi a mesma coisa: calças jeans folgadas e desgastadas, shorts jeans de tamanho e numeração traiçoeira (que lhe proporcionavam um aumento de peso virtual), blusinhas de alças finas (que aumentavam e despencavam seus seios), tamancos (saudosos de cores) ou tênis (esportivos demais). Fora o conflito de cores! Se toda roupa envia uma mensagem, as composições de Marisa pedem socorro. Nenhuma peça conversa com a outra; é uma desarmonia só. 
Na semana passada, ela me enviou uma mensagem no WhatsApp. Queria me pagar um dinheiro que eu tinha emprestado. Fui ao seu apartamento buscar. Avisei com antecedência como sinal de bom senso. Quando cheguei, ela logo apareceu na porta. Estava vestida de baby-doll azul claro. A visão causou-me desconforto; sensação contrária à proposta do conjunto. Ela não se intimidou; a tarefa foi delegada a mim. 
Não satisfeita em me pagar, começou a tagarelar. Iniciou os trabalhos de nossas conversas fiadas e afiadas com as fofocas quentes dos últimos dias; até esqueci como ela estava vestida! Fofoca é assim: você lembra uma coisa e esquece-se de outra. Pelos meus cálculos ligeiros (fadados ao erro), o papo esticou por duas horas e, durante esse tempo, não contabilizei o número de ajeitadas que ela deu na alça direita do baby-doll com a mão esquerda. Isso parecia um desconforto; afinal, no lugar dela é o que eu sentiria! 
O baby-doll a traía; ao invés de promover conforto e sensualidade, denunciava-lhe o quanto apreciava as cervejas que regavam todos os seus fins de semana, sempre bem acompanhada de Lady Gaga, Rihanna, Justin Timberlake e vários outros do pop. 
Depois que recebi meu dinheiro, desci… Desci e lembrei! Lembrei de uma vez em que a vi naqueles trajes! Não estou certa se era o mesmo ou da mesma cor; certo é que era do mesmo modelo! E não foi no andar dela; menos ainda no seu apartamento! Foi no térreo, na recepção! Ela passava enquanto eu conversava com dois vizinhos… Veja bem: vizinhos homens! Nós três a vimos atravessar a recepção de baby-doll; ninguém se atreveu a comentar; era o que cabia. 
Mas teve um fato que ocorreu na semana passada: alguém interfonou lá do portão e outro alguém do terceiro andar desceu. O primeiro eu vi; era um homem desconhecido — baixo, gordo e claro — tinha aspecto de prestador de serviços já que trazia junto ao corpo uma bolsa pequena daquelas de viagem… E quem desceu? Alguém com chinelos que batiam na sola do calcanhar — um som que ainda compreendo porque é metálico! O compasso do ritmo é dois por quatro já que quem o calça tem pressa! 
Não demorou muito e um burburinho semelhante ao de abelhas ressoou… Houve um encontro entre quem chegou e quem foi recepcionar! Termino meu café e me prontifico a descer… Bisbilhotar é uma coincidência!
Os primeiros passos — a cada degrau abaixo — me dão uma ideia de que estou prestes a encontrar o ninho do zumbido… No último degrau deparei-me enfim com as duas criaturas — em vez de zangão e abelha — era o prestador de serviço e Marisa minha vizinha!  Ela explicava de modo vago o que ele deveria fazer já que o serviço não era para ela mas sim para outra vizinha que naquele momento estava ausente! Ele mantinha-se atento. Olhava tudo e quando mirava nela fitava somente o olhar. Já Marisa — sempre simpática e educada — era a permanência dos últimos tempos! Ela vestia mais uma vez o baby-doll da semana passada e novamente a tal da alça direita pendia… Era um descabimento!

domingo, 20 de julho de 2025



 “Vejam só que absurdo, esse presidente dos Estados Unidos, Trump, taxar o Brasil. Ele tem que parar de se intrometer nas coisas aqui e se ocupar com o país dele”, disse aquele homem franzino, sentado no banco da rodoviária. Concordei mentalmente, já que não fazia parte da conversa e o desconhecia, assim como as três mulheres com quem ele conversava.
Naquela manhã fria e agradável, o homem franzino, calmo e bem disposto, demonstrava que era informado e atualizado e repassava as últimas notícias sobre as relações comerciais entre os Estados Unidos e o mundo. “Um absurdo” seria a frase que resumiria todo o noticiário da semana: impresso, visualizado, ouvido, curtido e compartilhado. Quem não está preocupado ou zangado está trocando memes, pois esse é o nosso jeitinho de expressarmos o nosso orgulho BR.
Como o virtual e o real nada mais são do que a extensão um do outro, há sempre espaço para a manifestação do contraditório, e foi o que aconteceu naquela manhã fria. Sentado no mesmo banco em que estava o homem franzino, porém de costas, havia um taxista que tinha chegado há uns dez minutos. Distraía-se olhando o pouco movimento que a manhã lhe proporcionava. Mas quando percebeu que bem às suas costas o assunto era política — Brasil, Estados Unidos, Trump e Lula —, o taxista virou-se no ímpeto, como um peão no primeiro giro. E esbravejou: “O Lula tem que ser preso de novo. Ele está acabando com o país. E quem manda é aquele ministro do STF…”, erguendo-se corpulento com o dedo no ar.
Achei que brigaria e chamaria o franzino para as vias de fato. Por sorte, este em nada parecia com Lula e tampouco com o tal ministro; se não, coitado, levaria algum golpe certeiro. O taxista, após erguer o dedo comprido, juntou-o com os demais formando com as duas mãos duas conchas; bateu contra a parte traseira da calça jeans e foi em direção ao táxi.
Se pretendia descansar um pouco naquele banco, foi infeliz. Entrou no carro e saiu sem olhar para ninguém. Em contrapartida, o homem franzino estava perplexo. Ele, que acompanhara a saída do taxista em silêncio, permaneceu estupefato por alguns segundos. As mulheres também. Eu permaneci.
Quando o homem franzino, com toda a sua franzidez, retomou a si mesmo, começou a dizer: “Vocês viram isso? A gente aqui conversando… E ele chegou, não falou nem um bom dia… Eu não gosto de falta de educação… Sou educado e respeito todo mundo…” As mulheres concordaram. Até eu, em meu íntimo.
Era um momento de apaziguar, retomar o curso ou iniciar outro mais ameno. Mas o homem franzino repetia. Com o acréscimo ou decréscimo de uma ou duas palavras, ele voltaria a repetir. Foram mais uma, duas, três… sem cessar. Tornara-se previsível. Era o homem franzino repetitivo. Incansável. As mulheres que antes falavam agora só balbuciavam; na certa estavam cansadas. Eu me prontificara a fungar; assim sinalizaria também o início discreto do meu cansaço.
“Vocês viram isso?…” Eis mais uma repetição que precedia e antecipava outras. O tédio tomava conta do ambiente como o raio solar que penetra numa sala à tarde. Mas ainda era de manhã; umas sete e meia. E toda essa ruminância se prolongava porque um homem surpreso não conseguiu reagir a tempo à intromissão virulenta de outro.

domingo, 29 de junho de 2025



 Existe um mercadinho na rua Ana Néri que resiste ao tempo. É uma quitanda de bairro, pequena, quieta e imprensada entre os imóveis do entorno. De um lado, há um prédio residencial que lhe rouba a atenção, e do outro, um terreno baldio com uma construção abandonada, que desvia qualquer resquício de atenção. O mercadinho carioca persiste.
Desde que me lembro, já teve a fachada verde. Depois trocaram para amarelo, vermelho com branco e agora recebeu um azul forte. Acho que foi proposital, pois destaca os cartazes afixados de cima a baixo, as promoções do dia e da semana. Estas ficam mais no alto, acima do batente, e aquelas na altura dos ombros de quem entra. Assim, poupam esforços na troca dos cartazes e induzem o cliente a comprar exatamente os produtos “sugeridos”.
Passei a prestar atenção no mercadinho recentemente, quando notei que estava com um letreiro novo, cujo nome era (ou melhor, é) Celina Vargas. Entre estranheza e surpresa, balbuciava: “Celina Vargas…”, “Celina Vargas…”. Rosaline, ao meu lado, achou graça de minha expressão confusa e quis saber se o tal nome tinha a ver com algum conterrâneo meu, pois Celina é distrito de Alegre. Respondi-lhe que não; tinha a ver com outra coisa, talvez uma pessoa, mas quem?
Nada vinha à minha mente e, ao mesmo tempo, aquele nome soava familiar. Quando isso acontece, tomo a decisão de desistir momentaneamente. Às vezes um breve distanciamento pode trazer resposta quando menos se imagina.
Arrisco dizer que devo ter me esquecido, pois o tal distanciamento durou alguns dias até que, de modo imprevisível, deparei-me com um livro sobre Alzira Vargas, a filha e também chefe de gabinete de Getúlio Vargas. E como um estalo lembrei que Celina Vargas é filha de Alzira e neta de Getúlio. Mas a resposta trouxe uma nova pergunta: por que o mercadinho se chamava Celina Vargas?
As homenagens são conferidas a Getúlio, o qual nomeia avenidas, escolas e repartições públicas. Não lembro de ver nada parecido com Alzira e mais improvável ainda com Celina. E se tratando de quitanda era duplamente improvável (ou seria triplamente?).
Agora era minha vez de perguntar a Rosaline: “Por quê?”. “Bom, talvez seja pelo nome do bairro que é Celina Vargas”, arriscou com imprecisão. Bairro chamado Celina Vargas? A sucessão de perguntas não indicava um fim. Era mais fácil discutir o preço do quilo de tomate.
Para evitar maiores dissabores, achei melhor pesquisar. E realmente Rosaline tinha razão. O bairro chamava-se Celina Vargas. Digitei no buscador do navegador “bairro Celina Vargas”. Nos resultados da pesquisa o primeiro a aparecer foi um mapa da região. Em seguida, um link da Wikipedia que pouco dizia; apenas a inserção do nome na listagem dos bairros. No terceiro apareceu um blog. Animei-me. Quando cliquei só vi uma listagem agora de fotos: casarios antigos, praças e monumentos de outros bairros. Outro link abaixo não ajudava: eram anúncios imobiliários ao redor e notícias antigas sobre feitos da prefeitura como a troca da iluminação pública.
Estava prestes a desistir. Por um lastro quis acessar a segunda página de resultados. Fiz isso e encontrei mais um link de um blog. Cliquei com esperança. Além de várias fotos antigas do bairro, o pouco texto disponibilizado fazia severas críticas ao abandono por parte da prefeitura “que era um absurdo; uma vergonha”. Lia em voz alta como meu singelo gesto de protesto e revolta.
Eu estava cansada; ligeiramente cansada. Desejava agora, mais do que qualquer antes, que aquele mercadinho tivesse outro nome; quiçá retomasse o anterior: “quitanda dos coqueiros”; pois à sua frente, dividindo a rua Ana Néri, havia uma fileira de coqueiros que nada sombreavam mas traziam sentido.
Mas não; queriam inovar, fazer diferente; mostrar que agora tudo era novo. O mercadinho podia receber o nome do seu dono (que nem imagino qual seja) ou só o sobrenome. Ainda assim poderia ser lembrado como um ponto de referência direto (aquele mercadinho dos coqueiros) ou indireto (fica lá perto do mercadinho na rua Ana Néri); também seria válido “o mercadinho perto do boteco” como “aquela quitanda perto da loja de 1,99”.
Mas não! Preferem o nome do bairro não por homenagem, mas por preguiça. Quem foi Celina Vargas? Ninguém cuja história despertou curiosidade! Por agora, o que se sabe é que o “quilo de tomate está a R$ 5,99”, como anuncia o carro de som, lento e alto ao percorrer os bairros da cidade, alertando que a “promoção é só essa semana”. Isso é o que importa.

domingo, 22 de junho de 2025



 Quando menos esperava, ela aparecia. Às vezes, era às 9 horas; em outras, às 15 horas. Tinha dia que era nos dois horários e, em algum outro, me dava paz. Era arriscado. Tudo bem que ela tomava seus cuidados, mas, mesmo assim, eu temia. E se sobrasse para mim?
A maior parte das vezes, ela ficava no primeiro andar. Quando não estava organizando o estoque ou as prateleiras, realizava o atendimento no balcão, embora sua função fosse perfumista. Quanto a mim, ficava no segundo andar, numa sala isolada, do lado oposto à da gerente, com papéis (muitos), computador e telefone. Minha função era jurídica: cobrar inadimplentes, devedores, SPC, Serasa e essas coisas. Mas sempre surgiam tarefas extras. Uma delas era fazer serviço de banco. De vez em quando, às 15h40 ou no mais tardar às 15h45, ela aparecia na minha sala para avisar. Ela também era incumbida desse bônus.
Gostava dela, mesmo depois de descobrir que não era minha amiga. Quando constatei isso, senti-me frustrada. Ela era apenas mais uma colega de trabalho como as demais. Mas me divertia com seu estado de graça apaixonado, que lhe fazia parecer algum filhote. Qual? Não sei. Mamífero era o que mais combinava.
Bom, observei aqui que até agora não disse o nome dela e quando isso falta, acaba faltando muita coisa. Taciana; seu nome era Taciana. Era mais alta do que eu, uns 10 centímetros. Pele bonita e branca por sorte; cabelos negros forçados por química, compridos e lisos. Seria bela se não fosse bruta. E ela tinha uma mão pesada. Lembro que quando fazia alguma brincadeira e ela reagia com ar de contrariedade, respondia com um tapão daqueles ardidos.
Ficava doce mesmo quando chegava à minha sala às 9 horas ou às 15 horas. É que ela escapulia para usar o telefone e ligar para o namorado. Se bem que não sei (ou melhor, não lembro) qual era o patamar de seriedade – ou de responsabilidade, como se diz hoje – pois parecia que toda e qualquer iniciativa partia somente dela.
Quando vinha às escondidas ligar para ele – que nunca soube como era, pois parecia não morar na mesma cidade e nunca vi nem uma única foto –, abria as câmeras de vigilância da loja para ver se ninguém apareceria para nos flagrar. Esse “ninguém” se tratava da gerente e dos patrões.
Aquilo se tornara cansativo e eu não tinha alternativas. A sala não podia ficar trancada e o telefone não era de uso restrito. Eu queria evitar conflito, pois era desnecessário e dependíamos uma da outra mutuamente e diariamente. Fora que brigar com pessoa apaixonada traz desgaste e incita traição. No fim, clamava por ideia e sorte; exatamente nesta ordem.
E tinha o fato de que além de ser obrigada a ouvir a ligação melosa – pois não podia sair da sala – tinha ainda o pré e o pós-ligação com toda aquela narrativa feminina de desabafo: “Será que ele está afim? Você acha que ele está levando a sério? Será que ele está apaixonado por mim? Que presente dou a ele? Me ajuda; o que devo falar para ele na próxima vez?”
Um dia, Taciana apareceu na minha sala pisando forte igual àqueles soldados em marcha de desfile cívico. A cara brava retinha a respiração; ela estava pronta para algo: explodir.
Bruta como sempre, se aproximou ligeira do telefone e por pouco não pisou no meu pé machucado por um incômodo calo. Brava, me disse que hoje seria o dia; que não dava mais e que acabaria com aquele tal namoro. “Que isso…”, “Que aquilo…” Falava e se movimentava. Com suas mãos grandes, unhas impecavelmente vermelhas e pesadas procurava pelo pequeno papel com o número de telefone do homem; por pouco não rasgou o papel judiado de tão amassado.
Nada disse, mas fiquei a pensar: “Será que finalmente terei sossego?”. E ela não parava de falar: “Cansei! Sabe… Vou falar um monte de coisa… O que ele pensa que é?”.
De repente, ela foi interrompida; alguém a atendera. Emitiu um reticente “oi”. Era ele! Observei suas expressões faciais; todo o enrubescimento havia desaparecido! Era engraçado perceber que ela ficara desarmada: seu tom de voz assumiu um tom doce e seus olhos se amendoaram: “Oi… Como você está?”.
Não tinha jeito! Olhei mais uma vez para ela e senti minha paz adiada; restou-me retomar aos papéis e às cobranças.

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