sábado, 14 de março de 2026
Existem coisas que se sabe, meio que ao longe, que existem, mas ninguém vê. E o mesmo vale para bichos. Lagarto é um bom exemplo. Lembro que, quando vi um pela primeira vez, tive um susto, pois não sabia e julguei apressadamente, devido ao medo, que se tratava de um dragão.
Dragão é um bicho que existe, mas não em Setiba, no Setibão ou no Una. Eles existem na Ásia, talvez na Austrália. Bom, se não for papo furado para desocupado criar fake news.
Na semana passada, eu vi uma tartaruga (ou seria cágado?) saindo de uma casa para seguir a empregada que varria a calçada. Mal o bicho conseguiu dar três passos, e a mulher bruta, numa única vassourada, mandou o pobre danado de volta para dentro do quintal.
A vassoura de piaçaba foi na cara dele. Espero que não tenha atingido os olhos, pois este órgão é muito desprotegido no bicho. Penso agora que tartaruga (ou cágado?) não tem pálpebras. Ou tem? Nos desenhos de gibis ou mesmo da TV, as tartarugas, principalmente as fêmeas, tinham. O desenhista, no auge de sua observação artística, na certa desenhava belas e curvilíneas pálpebras para conferir charme e sensualidade ao bicho. Acho-o engraçado, bicho de cara lambida. Se fosse gente, seria gente sem vergonha, devido à cara lisa, lisinha demais. Lembro de um amigo que tem cara de tartaruga, cara lisa, sabe, mas ele não é sem vergonha; ele tem a cara do Edgar Scandurra. E não toca guitarra. Aprecia Monet e Marcel Proust. Sou grata a ele por ter me apresentado um pouco de cultura, inclusive o próprio Proust, que um dia lerei sem promessa de segunda-feira, mas com intenção genuína aliada à curiosidade, porque agora quero ler Carla Madeira e ver se tudo é realmente rio.
Tartarugas e cágados gostam de água. Acho boa a umidade, principalmente nestas semanas de calor assombroso que quase me fez errar o CPF quando a vendedora no pet shop me pediu para abrir o meu cadastro, depois o meu histórico de compras e, por fim, me dar algum desconto em mais uma ração para cachorros. Lá não encontrei nada para tartarugas, mas tem filhotes de hamsters. Tartaruga deve ter alguma coisa. Prometo prestar atenção na próxima. Se bem que a próxima será daqui umas três ou quatro semanas, e na certa esquecerei. Como ontem, que esqueci de lavar a caminha dos meus cachorros. Sei que aguardam esse momento com certa ansiedade só para depois dormir no limpinho, com os focinhos embrenhados no tecido regado de amaciante. No dia seguinte, eles levantam com preguiça, de pelos macios e cheirosos. Gostaria que isso fosse um sinal de retribuição. São apenas consequências naturais. Ou macias.
Tartaruga não é macia. É lisa. Onde dorme? Será que naquela casa tem alguma caminha para ela? Ou é só um cantinho em que ela, sonolenta, se retrai e se esconde dentro do casco? O casco é o seu cobertor. Se eu tivesse contato próximo com uma e a percebesse toda encolhida, bateria no casco como se bate a porta para ver se ela colocaria o pescoço para fora e qual seria sua reação à minha insolência. Talvez não se importasse tanto, pois, depois da vassourada na cara, imagino que deva levar muitos trancos, inclusive da empregada que, na pressa de terminar logo o serviço, deve confundi-la com algum móvel ou brinquedo ou qualquer outra coisa que não seja casco de... tartaruga.
Ontem passei novamente em frente à sua casa, mas não a vi. Atravessei a rua para adentrar outra que me serviria de atalho para uma terceira, já que precisava passar no Empório de Ervas e comprar tanchagem (essencial para a minha otite). Bestamente, resolvi caminhar pelo lado quente e recebi aqueles raios solares bem na fuça, provocando-me um imediato espirro. Quando estou entregue ao segundo, percebo algum vulto do outro lado da rua, porque vulto se apresenta assim: com distância e no canto do olho (ou rabo de olho). Mas não era espírito; tratava-se de gente encarnada. Dois adolescentes que falavam qualquer coisa maravilhados entre si. Estavam em frente a uma bela casa dessas cheia de verde, de arbustos, de fresquinho gostoso de ficar. Essas coisas não deixam adolescentes surpresos, embora a região seja de um calor desértico. Acontece mais com gente como eu, que não pode ver um lastro de natureza que já quer por ali se alojar. E como não é possível, sonho em um dia, um dia desses vindouros qualquer, viver em um lugar assim. Mas o meu sonho ainda não encontrou um atalho. Enquanto crio uma viseira com minhas mãos para enxergar melhor, percebo que o rapaz aponta para a grama e a menina abre um sorriso. É que vinha ao encontro deles uma tartaruga (ou seria cágado)? Não posso esconder que também fiquei maravilhada. Mais uma? E há poucos metros da casa da outra? Quem se inspirou em quem para adotar aquele bicho? Ou seriam esses mesmos bichos parentes que se avizinham por alguns metros? Se assim for, este é o primogênito, pois assim deduzo, com risco, por achá-lo maior. Mas vai que, por minha ignorância nesse tipo de réptil vertebrado, a diferença de tamanho distingue a tartaruga do cágado? Percebo que os adolescentes também não sabem e perguntam entre si: é tartaruga ou cágado? Como um deles logo saca do bolso da calça um celular, em questão de segundos saberá a resposta. É só dar um Google.
Também estou com o meu no bolso, mas celular é uma coisa que me dá preguiça, ainda mais na rua, caminhando por calçadas íngremes e sol cortinando a minha frente. Deixo para lá e sigo. Quando estou prestes a sair da rua atalho, dou uma olhada para trás. Não dá para ver a casa, menos ainda os adolescentes, pois a rua atalho termina em curva. Tartaruga ou cágado é uma dúvida. Talvez jabuti seja a solução.
sábado, 7 de março de 2026
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Se ele não tivesse arrastado tanto os pés, eu não teria percebido a sua chegada. Juro. Sentou-se no banco de concreto gelado, olhou-me e não me cumprimentou. Achei tão feio. Sou de reparar nessas coisas, pois, desde que me entendo por gente, vejo nos idosos o símbolo da sabedoria. Cada ruga, ou mesmo fio de cabelo branco, é uma história, um marco, acertos e erros, a compreensão das coisas e dos seres. Quando não reconheço esses sinais, decepciono-me.
Ele emitiu um leve gemido assim que sentou e se recostou naquele cimento grosso e gelado. Não sei se foi pelo cansaço de tanto arrastar os pés ou pelo choque da temperatura entre o corpo e o cimento. Fiquei em dúvida, permaneci, mas sem encarar para evitar qualquer mal-entendido. Sabe como são essas coisas, nada mais incomoda um ser do que outro lhe encarando. Isso acontece também com os animais: a encarada é sempre sinal de afronta.
Era domingo. Passava das 14 horas e, como em qualquer lugar, a tarde era lenta. E ali, em Iconha, a tarde era sonolenta. Tinha acabado de almoçar e sentia o meu corpo agradecer, pois o almoço espantara a minha dor de cabeça, assim como a lentidão e a fraqueza. Se eu me sentasse, acabaria cochilando, coisa que deveria evitar, mesmo esperando o ônibus no interior. Preferi ficar em pé e recostei minha mochila no banco de cimento frio, pouco distante daquele homem.
Do meu lado esquerdo havia outro banco de madeira, ocupado por um casal de meia-idade apático, que esperava o ônibus. O velho apático estava à minha direita. Eu estava no centro. Não protagonizava. Observava. Era como uma telespectadora cansada em frente à TV à noite, com todo o cansaço diário acumulado. Queria distração, um pouco ao menos. O que se movia devagar à minha frente, principalmente do outro lado da rua, chamava a minha atenção.
No terminal rodoviário, havia muitas pessoas. É de se estranhar por se tratar de domingo, mas eram todas passageiras que esperavam o ônibus para Vitória. Sem esforço, acertei: era previsível. Estranhei quando olhei para a rua lateral do terminal. Havia tanto barulho. Ali, era um centro de convivência da terceira idade, e esses lugares costumam ser mais tranquilos. Observei melhor para ver o que conseguia captar. Bastaram poucos minutos. Era um tipo de culto, sim, um culto protestante com direito a microfone alto e abafado. Havia poucas pausas. Na maior parte do tempo, uma mulher falava. Não sei se não equalizaram o microfone ou se ela o usava colado à boca, mas o que saía era um grunhido, um latido rouco de rottweiler velho e ininteligível. Aquilo durava mais de uma hora e parecia ter começado por volta do meio-dia. Foi o que deu para entender de um homem que tinha sentado para conversar um pouco com o velho apático. Foi o que pareceu. Todo aquele som abafado se misturava com os barulhos dos carros e motos que, mesmo em pouca quantidade, passavam com vontade e força. Era alguma coisa diferente de pressa.
A tarde seguia lenta, cada um se distraía. O casal mantinha conversas interrompidas pelas telas dos celulares. Eu permanecia em pé ao lado do banco de cimento gelado para evitar cochilos; e o velho apático, bom, esse se sentava, levantava-se, conversava com outros velhos conhecidos que se aproximavam. Mas a maior parte do tempo ficava sozinho, à espera, sabe-se lá de quê.
Como estávamos em uma calçada, éramos facilmente atravessados por diferentes pessoas. É claro que, se fosse dia de semana, a quantidade seria maior e, se chovesse, pior. Haveria pessoas com sombrinhas, cujas pontas poderiam ameaçar os olhos e, na melhor das hipóteses, ser molhado com gotas grossas de água canalizadas por elas. Mas aquela tarde de domingo era seca e ensolarada, e a menor quantidade de gente era significativa.
Quando o velho apático se distraiu, veio de longe um menino em uma bicicleta. Eu vi. Era um menino veloz e hábil. Se fosse um homem em uma moto, seria ainda mais habilidoso e ágil, pois iria zigue-zaguear de dar vertigem a quem assistisse.
O menino veio tão veloz sobre a calçada que não deu tempo do velho apático sair de sua distração. O menino passou tão rente ao velho que senti uma brisa moleque. O velho se assustou e, quando se recobrou, começou a resmungar xingamentos ao menino que já se tornara pequeno por estar longe. Nada adiantava. O velho apático, com toda a sua apatia, mantinha-se sentado no banco de cimento duro e gelado, grudado. O banco era a extensão do velho.
A tarde caminhava sem pressa. Tudo estava tão calmo que um pardal pousou na calçada bem à minha frente. Ele dava seus pulinhos para a esquerda e para a direita, olhando de soslaio para mim. Eu o contemplava. Ele percebeu e se aproximou um pouco, depois se afastou. Será que queria brincar comigo? Permaneci imóvel para não assustá-lo. Queria observá-lo mais. É bonito de ver. Sua plumagem, bico, patinhas, o corpinho parrudo (com mais penas do que carne). Dá vontade de pegá-lo, estender a mão como uma retroescavadeira, erguê-lo até a altura dos meus olhos e observá-lo de perto, ver o que não sei dele, admirar-me com alguma novidade, aprender com ele, saber dele. São possibilidades distantes.
Imito o pardal e, de soslaio, percebo que o velho apático não o viu. Mas a mulher da esquerda o contemplou. O pardal tinha remelexo e graça. Num repente, o velho apático o viu e, mesmo não estando perto, pois o bichinho estava mais próximo a mim, bateu o pé no chão com força e espantou a ave serena num susto. O bichinho desapareceu em segundos enquanto o velho apático mantinha sua cara apática. Olhei-o e não disse nada. Olhei a mulher que, como eu, sentiu o momento e preferiu o silêncio. Com certeza pensávamos a mesma coisa: “que velho sem graça”.
domingo, 27 de julho de 2025
domingo, 20 de julho de 2025
domingo, 29 de junho de 2025
domingo, 22 de junho de 2025
Tartaruga (ou Cágado)?
Existem coisas que se sabe, meio que ao longe, que existem, mas ninguém vê. E o mesmo vale para bichos. Lagarto é um bom exemplo. Lembro q...






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